Após quatro anos de investigação, foram publicados os resultados do projeto SAFE – Stop Atropellos de Fauna en España, liderado pela Estación Biológica de Doñana – CSIC. Este estudo forneceu dados sobre a mortalidade de vertebrados nas estradas, informação que não havia anteriormente.
Os valores estimados são alarmantes: entre 18 e 55 milhões de vertebrados são mortos anualmente nas estradas espanholas. No entanto, os investigadores advertem que os números reais podem ser ainda mais elevados devido à dificuldade de registar todos os casos.
Para oferecer uma perspectiva mais ampla e precisa, o Ministério da Transição Ecológica e do Desafio Demográfico lançou o projeto SAFE. Este estudo permitiu registar os atropelamentos em todo o território espanhol através de uma metodologia rigorosa que corrigiu os vieses associados à recolha de dados. Um dos aspectos mais inovadores do projeto tem sido a utilização da ciência cidadã para recolher dados em grande escala. Segundo a Jara Y Sedal, Marcello D´Amico, investigador do CSIC referiu que “O SAFE é o primeiro projeto do mundo a investigar atropelamentos à escala nacional através da ciência cidadã. A participação dos voluntários tem sido crucial. Sem eles, não teríamos conseguido alcançar a distribuição geográfica ao longo do tempo que tivemos”. Durante um ano, os voluntários seguiram itinerários pré-definidos a pé, de bicicleta ou de carro, registando os atropelamentos através de uma aplicação móvel. Graças ao seu envolvimento, foram recolhidos dados em 304 locais em 45 províncias espanholas entre outubro de 2020 e março de 2024.

Um dos maiores desafios do estudo foi a estimativa exacta da mortalidade real, visto que um dos principais problemas identificados é o facto de os animais mortos na estrada nem sempre permanecerem no local do impacto. Em muitos casos, podem ser deslocados por veículos, removidos por necrófagos ou eliminados pela manutenção das estradas. Outro fator determinante é a eficácia da deteção das carcaças. As espécies de pequeno porte ou com cores semelhantes ao asfalto são mais difíceis de identificar, o que leva a uma subestimação dos registos.
Os investigadores confirmaram que os anfíbios são o grupo mais vulnerável. A sua elevada mortalidade deve-se ao facto de terem tendência para se deslocarem lentamente e de muitas espécies efetuarem migrações sazonais em massa, atravessando as estradas em grande número. Os lagartos também têm uma elevada taxa de mortalidade nas estradas, o que pode ter consequências graves para a sua conservação, uma vez que tendem a receber menos atenção nos programas de monitorização. Outro grupo particularmente afetado é o das pequenas aves, cuja presença nas bermas das estradas as torna particularmente vulneráveis ao atropelamento. Outros grupos, como os micro-mamíferos, coelhos, lebres e carnívoros, registam igualmente taxas de mortalidade elevadas.
Os resultados do estudo sublinham a urgência de adotar medidas de conservação para reduzir a mortalidade da fauna selvagem nas estradas espanholas.
Fonte: Jara Y Sedal