Artigos de Gestão Cinegética
A seca, as temperaturas elevadas e os incêndios que marcaram o verão de 2026 estão a influenciar o debate europeu sobre o futuro da Política Agrícola Comum (PAC), com crescente atenção às práticas agrícolas capazes de aumentar a resistência dos territórios às alterações climáticas.
Os impactos foram significativos em vários países europeus. Na região italiana do Véneto, os prejuízos foram estimados em mais de 400 milhões de euros, enquanto em França a produção de milho terá diminuído cerca de 10% e, na Hungria, as perdas de cereais chegaram, em algumas zonas, aos 20%. Perante estes acontecimentos, a Comissão Europeia tem alertado para a possibilidade de episódios de seca, calor extremo e incêndios desta natureza se tornarem cada vez mais frequentes.
O tema esteve em destaque na reunião da Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu, realizada em setembro, dedicada ao futuro da PAC após 2027. Segundo a análise divulgada pela FACE – Federação Europeia para a Caça e Conservação, vários intervenientes defenderam que a resposta aos períodos de seca não deverá passar apenas por instrumentos como seguros agrícolas ou sistemas de irrigação.
Entre as medidas apontadas encontram-se a melhoria da qualidade dos solos, a capacidade de retenção de água e a manutenção de paisagens agrícolas mais diversificadas. O eurodeputado Norbert Lins, responsável pelo processo parlamentar relativo à futura PAC, afirmou estar disponível para reservar uma parcela mínima do orçamento da política agrícola para medidas relacionadas com a natureza e o clima, embora tenha salientado que o valor final dependerá das negociações sobre o próximo orçamento da União Europeia.
A discussão assume também importância para a conservação da biodiversidade nos territórios agrícolas. Elementos como sebes, margens de vegetação, áreas não cultivadas, diversidade de culturas e solos com maior capacidade de retenção de água podem contribuir simultaneamente para aumentar a resiliência das explorações agrícolas e proporcionar habitats e alimento para espécies de fauna selvagem, incluindo aves e pequenos mamíferos. Para o setor cinegético, esta evolução do debate poderá ter particular relevância, uma vez que as medidas destinadas a tornar as explorações agrícolas mais resistentes à seca podem também beneficiar as espécies associadas aos habitats agrícolas.
A discussão sobre a futura PAC coloca, assim, em destaque uma questão cada vez mais presente na política agrícola europeia: como conciliar a produtividade e o rendimento dos agricultores com a capacidade dos territórios para resistirem a condições climáticas mais extremas e manterem a biodiversidade.
Fonte: FACE


