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Saiba afinar a sua carabina: Noções básicas para tirar o máximo rendimento

by Redação

Quantas vezes assistimos a uma montaria com inúmeros disparos e os resultados não são mais do que meia-dúzia de reses? E nas esperas como é possível errar algo com o porte de um javali? O que se passa? Se fizermos uma análise da média de tiros por rês cobrada veremos que os resultados são surpreendentes. Facilmente essa média poderia ser melhorada. Como caçadores responsáveis temos essa obrigação. E o primeiro passo será afinarmos – nós próprios – as nossas carabinas.

Não vamos colocar em causa o trabalho dos armeiros, necessário para a correta montagem dos órgãos de mira ótica (convencionais ou eletrónicos), instalação das bases, escolha dos melhores sistemas, etc. Claro que quem se sente habilitado a esta tarefa pode avançar para o “faça você mesmo”, mas o trabalho de um bom armeiro continua a ser imprescindível para a maioria. Inclusive para uma primeira afinação do conjunto, em túnel de tiro, por exemplo. Mas para se ter um conjunto carabina/ mira/munições devidamente afinado para o seu proprietário, esse trabalho deve ser realizado pelo próprio. Por exemplo, imaginam- se a conduzir um automóvel de um amigo sem regular a distância do banco aos pedais? E se esse automóvel for um desportivo de alta potência, para poder desfrutar desses momentos únicos temos mais afinações a fazer para além da distância do banco aos acelerador e travão. Não é verdade?

Em primeiro lugar…

A primeira coisa a ter em conta é que as nossas armas devem estar limpas para que funcionem corretamente. Sim! As carabinas também precisam de limpeza. E isto não é válido unicamente para as armas usadas, as armas novas – saídas da caixa – também precisam de ser limpas. Normalmente vêm protegidas por um forte produto de proteção contra a corrosão, para que possam ficar devidamente armazenadas durante longos períodos de tempo. Essa camada protetora deve ser removida. Por exemplo, nas armas semiautomáticas essa “massa” facilmente ficará mais espessa com a temperatura resultante dos primeiros disparos e produzirá resíduos que podem dar origem a interrupções nos mecanismos de repetição. Outro perigo é que tenham esse produto na alma do cano. Poderemos pensar que os primeiros disparos vão “limpar” o cano, empurrando esse lubrificante para fora, mas isso pode não acontecer e os resíduos facilmente se podem incrustar nas estrias e aumentar a pressão, inclusive causar deformações no cano. Ou seja, cuidado com a limpeza das armas, sejam elas usadas ou novas.

Limpeza geral

Se a arma é nova vamos desmontá-la, acompanhando o processo pelo manual. Todos sabemos como funcionam, mas alguns modelos têm os seus “segredos” e o manual dá-nos todos os passos e informações sobre o que precisamos (ferramentas) para esta tarefa. Para a limpeza das peças existem produtos específicos, desengordurantes e lubrificantes. Cuidado com os lubrificantes! Não devemos recorrer a óleos multiusos que podem não estar preparados paras as temperaturas a que estão sujeitas as armas de fogo. Vamos utilizar produtos específicos para armas. O mesmo se passa com os trapos de limpeza, que podem deixar resíduos nos elementos mecânicos e provocar o mau funcionamento dos mecanismos ou, pior, no interior do cano. Cuidado também com a utilização de alguns produtos solventes que danificam os materiais sintéticos (plásticos, borracha…) existentes em várias partes das armas de fogo.

Afinação de alça e ponto-de-mira

Cada vez são menos utilizadas, mas como o saber não ocupa lugar… Não é uma tarefa complicada. Normalmente as alças têm afinação em deriva (lateral) e muitas possuem marcações micrométricas que nos vão guiar nesta operação. Regra geral os pontos-de-mira têm afinação vertical e por vezes também têm escala. Deve ser escolhido um bom apoio, que pode ser um cavalete específico (preferível sem apoio para o couce da coronha) ou com sacos de areia fina que vão suportar a carabina. O alvo deve ser colocado a não mais de 50 metros. O processo de afinação só começa depois de efetuados pelo menos dois disparos. Se os mesmos estão juntos (agrupados), mesmo longe do centro do alvo, significa que foram bons tiros. Vamos supor que os impactos ficaram à direita do centro do alvo: • Se a afinação for feita na alça, vamos deslocá-la para a esquerda; • Se a afinação for feita no ponto- de-mira (por exemplo, em armas com alça fixa), vamos deslocá-lo para a direita. Resumindo, com a alça em sentido contrário e com o ponto-de-mira no mesmo sentido. Se os impactos ficaram baixo no alvo: baixamos o ponto-de-mira ou subimos a alça, conforme a afinação for feita num ou outro elemento. Com as miras abertas estamos sempre sujeitos a erros de altura ou deriva, a configuração da alça conta muito para a margem de erro. Por exemplo, as alças em U ou em V com um ponto-de-mira quadrado ou cilíndrico, respetivamente, permitirão sempre disparos mais precisos do que as alças de “rampa”, mais adequadas a encares e tiros rápidos sem tanta precisão.

Uma mira bem montada

Muitos caçadores vão caçar sem nunca terem dado um único tiro com a sua nova mira telescópica, montada e afinada por um armeiro. Normalmente esse tipo de afinação é genérica e se bem feita coloca os impactos no alvo. No entanto existem outros fatores que influenciam a precisão de tiro. Por exemplo, o conforto da posição da cara. Uma postura forçada irá criar tensões que provocarão disparos menos precisos. O alinhamento do olho diretor (que utilizamos para fazer pontaria) com a mira é muito importante. Esse alinhamento deve ser perfeito com o encare da arma. Outro fator de grande importância é a distância ocular, que não só vai permitir uma mais rápida aquisição do alvo como também garantir que o caçador não leva com a ocular no sobrolho! Uma forma correta de verificar se a mira está bem montada é fechar os olhos e realizar o encare da arma. Ao abrir os olhos, se a ocular da mira ficar perfeitamente alinhada com o olho diretor e a uma distância segura (9 a 10 cm), então está perfeita! Isto é válido tanto para miras convencionais como para os aparelhos de pontaria de visão noturna/térmica.

Limpeza do cano: Cuidado!

O cano de uma carabina deve ficar bem limpo e sem uma única gota de lubrificante. Isso mesmo! • Um cano estriado limpa-se sempre da câmara para a boca; a introdução de uma vareta de limpeza pela boca do cano pode danificar as estrias, o que fará a arma perder precisão de tiro. • Se o cano está sujo, primeiro deve fazer-se uma passagem com um escovilhão de cobre e depois, eliminados os resíduos, passar com uma “mecha” de algodão ou lã. Poderá utilizar uns cilindros de algodão de utilização única; colocam-se pela câmara e empurram-se até sair pela boca do cano. Os produtos de limpeza e lubrificação devem ser sempre os adequados. • Numa carabina com várias épocas de caça é natural que se acumulem resíduos de cobre (o material mais utilizado nas camisas dos projéteis) que devem ser eliminados. Para isso existem produtos específicos (em líquido) que desincrustam esses resíduos algumas horas após a sua aplicação. Depois desta operação o cano deve ser limpo normalmente. • Devem ser sempre utilizados acessórios de limpeza adequados; varetas próprias para armas de cano estriado, “mechas” de limpeza, etc.

Afinar uma mira ótica

Existem diferentes métodos para afinar uma mira ótica convencional (com torretas de afinação). Em primeiro lugar vamos procurar um bom apoio de tiro; uma mesa estável, um cavalete ou sacos de areia e um banco regulável em altura. Habitualmente as carreiras de tiro disponibilizam este tipo de material. O primeiro passo será colocar o alvo a 50 metros de distância. Se a carabina é de ferrolho, e o mesmo é facilmente removido da caixa da culatra, vamos alinhar a alma do cano grosseiramente com o centro do alvo. Com a arma bem apoiada, e sem mover “um pelo”, vamos regular as torretas de deriva e altura de modo a fazer coincidir o retículo com o centro do alvo. Com este método temos praticamente garantido que o primeiro disparo será, pelo menos, no alvo. Com uma carabina semiautomática este processo não é possível. Por isso é aconselhável o recurso a um colimador, sendo os de laser os mais práticos. O investimento neste acessório será facilmente compensado pelo menor gasto de munições. Projetado o ponto laser no alvo, com recurso às torretas vamos levar o retículo da mira ao centro. Nenhum destes passos conclui o processo de afinação da mira. Agora há que efetuar pelo menos dois disparos. Mais uma vez, só serão considerados “bons” se estiverem agrupados, ou seja, que não estejam separados por mais de dois ou três centímetros (a 50 metros é razoável). Se for o caso, podemos usar como referência um desses impactos e fazer as contas do número de cliques (nas torretas) necessários para o levar ao centro do alvo. Habitualmente as torretas têm as marcas de UP e R, respetivamente no dispositivo de afinação vertical e horizontal. Passamos à afinação “fina”. Se o impacto ficou baixo, para o subir deve dar os cliques no sentido da seta UP. Se quiser levar o tiro para a direita, então basta dar os cliques no sentido da seta R. A cada clique corresponderá um determinado deslocamento a 100 metros (regra geral); por exemplo, 1 clique = 1 cm a 100 metros. Neste caso, com o alvo a 50 metros de distância, se o nosso impacto estava (p.ex.) 4 cm à direita, temos que rodar a torreta (de afinação horizontal) 8 cliques, ou seja, o dobro dos cliques para metade da distância de referência (100 m). O processo de afinação deverá ser concluído garantindo pelo menos três disparos agrupados.

100, 200, 300 m…

Existindo a possibilidade de disparar ao alvo a 100 metros de distância essa oportunidade deve ser aproveitada, principalmente por que podemos praticar. Para concluir a afinação a esta distância com disparos efetivos, vamos proceder da mesma forma; dois disparos, afinação nas torretas e três disparos para concluir. No entanto, se a única possibilidade de tiro são os 50 metros, pode perfeitamente afinar a essa distância o seu conjunto (carabina/ ótica/munições) para tiros mais longos. Não se esqueça, partindo do princípio de que tem tudo perfeitamente bem montado. Todos os fabricantes de munições anunciam nas suas caixas (catálogo ou website) a informação balística necessária para as distâncias mais comuns (50, 100, 200…). Por exemplo, para o calibre .30-06 com um projétil de 165 grains Norma Orix, se deixarmos os impactos no alvo a 50 metros cerca 8 centímetros acima do centro, temos a finação a “zero” (centro do alvo) para a distância de 150 metros. Basta consultarmos a informação balística fornecida pelo fabricante das munições, tendo em consideração padrões standard (altura da mira a 40 mm do cano, p.ex.) dos quais, regra geral, não nos afastamos com as opções existentes no mercado.

Complicado?

Não, apenas requer um pouco de prática. O processo é simples e intuitivo. Obviamente, o tiro exige concentração e método. Siga sempre as regras de segurança, confirme antes de cada série de disparos se o cano da arma está livre (cuidado com os colimadores!) e tenha calma. Se os disparos não estão agrupados, pare, descanse e relaxe. Não culpe de imediato o equipamento. Volte a repetir o processo e só então retire as suas conclusões definitivas. Verá que no final a sua média de tiros certeiros melhorará. Bons tiros!

A escolha das montagens

Naturalmente, a disponibilidade financeira condiciona na maioria das vezes a escolha das montagens. Por isso será conveniente analisar em primeiro lugar a utilização que dará à sua carabina. Por exemplo, não será muito lógico optar por umas montagens de saque-rápido se apenas tem uma única mira telescópica para montar numa carabina sem órgãos de mira abertos. Nesse caso opte por umas boas montagens fixas, bastante mais económicas. A altura das montagens é condicionada pelo tipo do aparelho ótico. Uma mira telescópica com lente objetiva de maior diâmetro (50 ou 56 mm) obrigará a montagens mais altas. Por vezes, a existência de alça no cano forçará a mesma decisão. O mesmo se passa com os aparelhos de pontaria de visão noturna. Uma mira montada numa posição mais elevada, se não for acompanhada por uma alteração na altura da crista da coronha, obrigará a uma postura de tiro menos confortável que terá quase sempre como resultado disparos menos precisos.

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