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A evolução das espingardas: Tecnologia ao serviço do caçador

by Mafalda Leitão

Para perceber as soluções tecnológicas que temos hoje à nossa disposição devemos começar por comparar uma espingarda das últimas décadas do passado século com os novos modelos que agora encontramos nos armeiros. A evolução em termos de ergonomia e conforto é simplesmente notável. Mas há mais… muito mais!

Se folhearmos um antigo álbum de caça, damo‑nos conta das diferenças no que diz respeito ao equipamento. Há 50 anos as espingardas eram muito semelhantes, fossem de dois canos ou semiautomáticas, as soluções empregues não variavam muito. Tal como o vestuário entre os caçadores, umas calças e camisa das mais “russas” que houvesse lá por casa, umas botas em fim de vida e por vezes um colete de caça – a única peça de vestuário “técnico” da época – que cobria a cartucheira e um chapéu ou boné a rematar o conjunto. Se hoje observarmos uma foto do nosso grupo de caça, mesmo que este seja restrito e composto por um número limitado de participantes, vamos ver diferentes soluções de vestuário técnico, especificamente adquirido para caçar a determinada modalidade de caça! O mesmo se passa com as espingardas; enquanto algumas mantêm a coronha em madeira e a báscula em aço, vamos certamente encontrar quem tenha preferido os materiais compósitos e as ligas leves em alumínio para os mesmos componentes. E se “estriparmos” os cartuchos, a diversidade de soluções faz igualmente parte da realidade.

Evolução contínua

Todas as mudanças no sentido de procurar evoluir os produtos – é isso que são – foram incorporadas pouco a pouco, ao longo das últimas décadas e as primeiras nem sequer tiveram a aceitação desejada por parte dos fabricantes. Durante muitos anos os caçadores não sentiram a necessidade de trocar o seu equipamento, caçar com a mesma espingarda durante vinte, trinta anos era comum. Na verdade, o Terreno Livre também dava poucas oportunidades de caça e por isso o equipamento durava muito mais tempo. O importante era encontrar um bom local para caçar, as espingardas e os cartuchos haviam de servir.

A SEMIAUTOMÁTICA

A estrela da evolução foi sem dúvida a espingarda semiautomática. Podemos pegar num exemplo muito claro; as primeiras “automáticas” da F.N. Browning com sistema de recuo de cano foram substituídas, dentro da própria marca, pelo sistema de tomada de gases, tornando rapidamente obsoletas as existentes até à época Auto 5. Ao longo dos anos os fabricantes evoluíram os seus sistemas de gases, como a Beretta, por exemplo, que mesmo sendo líder de mercado neste segmento em muitos países, nunca deixou de apresentar evoluções.

As necessidades da indústria armeira

Com o número de caçadores a estancar e posteriormente em queda, a indústria armeira teve que se reinventar e procurar vender aos mesmos caçadores, aqueles que já tinha espingarda(s) em casa, novos artigos, mais apelativos e com diferentes características. As prestações de uma espingarda das décadas de 1970 e 1980 são consideravelmente diferentes de uma espingarda, por exemplo, do ano 2003. Embora todas sirvam para matar caça! Desde que se saiba apertar o gatilho!! As perdizes e as lebres continuam a escapar com tiros errados. houve uma evolução notória nas espingardas, principalmente das oriundas dos grandes fabricantes. Também a caça sofreu um processo de “globalização”, com os principais fabricantes a apresentarem soluções universais, independentemente da região do planeta onde se venderá essa espingarda. Os fabricantes mais pequenos, cujas espingardas ganharam prestígio, mantêm alguns dos processos tradicionais de fabrico, embora não rejeitem o uso de moderna maquinaria de controlo computorizado (CNC), o que veio incrementar a qualidade das suas produções, mas de um modo geral continuam a oferecer espingardas de design clássico, por vezes com a introdução de algumas soluções técnicas inovadoras. Os sistemas mecânicos, os canos e as coronhas registaram uma evolução significativa. Melhorar a fiabilidade, as prestações e o conforto de tiro e rapidez de encare foram os principais objetivos dos fabricantes. Os caçadores também beneficiaram de outros efeitos “colaterais” da evolução dos processos de fabrico, contando com uma maior oferta, mesmo de espingardas de design mais clássico (como as de canos justapostos) e com preços muito mais competitivos. Os fabricantes foram-se especializando em determinados segmentos do mercado.

A espingarda moderna

Dito isto, vamos ver como evoluíram espingardas em determinados aspetos, começando por uma das suas partes fundamentais, os canos. Por mais que gostemos de uma espingarda antiga, se fizermos vários testes de tiro facilmente concluímos que as armas modernas apresentam melhores resultados de distribuição e penetração dos projéteis (bagos de chumbo). Os chokes intermutáveis são um dos principais avanços técnicos das últimas décadas do anterior século. Antes os caçadores estavam limitados aos chokes que originalmente tinham sido atribuídos à sua espingarda, mesmo que escolhidos por si em função da modalidade mais praticada; mas a versatilidade dessa arma era consideravelmente menor do que aquela que conseguimos obter na atualidade. De facto, os que ainda se recordam de antigas conversas de espingardaria, vão lembrar‑se dos que gostavam de espingardas “que alargassem os tiros”, ou outras “mais abertas” para a abertura aos coelhos. Rapidamente os caçadores perceberam os benefícios dos “polichokes”, externos em muitas semiautomáticas e internos nas espingardas de canos sobrepostos. Começar a época com um choke e terminar com outro, em função das necessidades de tiro, passou a ser comum. Outra conclusão – que demorou um pouco mais a adquirir – teve que ver com o comprimento dos canos.

OS CALÇOS DE COULCE

Sem entrarmos na evolução das coronhas que integram sistemas de antirecuo, os calços de couce também registaram avanços significativos, tornando o recuo mais tolerável e melhorando as condições para um segundo disparo, embora o conforto tenha sido o primeiro objetivo dos fabricantes.

As armas com 71 centímetros eram mais ágeis e com um choke fechado, garantindo as necessárias prestações para um dia de passagem aos tordos e com a “ponteira” cilíndrica os resultados numa jornada coelheira. Ao longo dos anos os chokes foram evoluindo, com materiais de maior qualidade a assegurarem uma também maior durabilidade e diferentes perfis internos, para aumentar a velocidade dos tiros, melhorar a distribuição, etc.

O comprimento do cano e as almas sobredimensionadas

Embora muitos continuem com a “sua” ideia de que com um cano mais comprido vão conseguir um maior alcance de tiro, essa “ideia” em nada corresponde com a mais recente informação (comprovada em testes) fornecida pelos fabricantes. Com as modernas pólvoras os canos podem ser mais curtos do que os 70‑71 centímetros (as medidas mais habituais), algo que proporciona ao caçador uma maior agilidade no encare. De facto, com os modernos cartuchos, pode‑se tirar maior partido dos canos mais curtos do que dos mais longos. Um claro exemplo do que aqui afirmamos é o ro de caçadores de galinholas que passam a usar as suas espingardas “especializadas” nas restantes jornadas de caça a outras espécies. Outro avanço a que os canos foram submetidos e que incrementaram notavelmente as prestações das espingardas, foi o sobredimensionamento das suas almas. A maioria dos fabricantes atualmente oferece os canos das suas espingardas com almas sobredimensionadas, procurando assim dar maior liberdade de movimento à carga desde que produz a deflagração até à chegada ao choke. O aumento de prestações no que diz respeito à velocidade e, consequentemente, à energia e penetração dos projéteis é evidente e está comprovado. O sobredimensionamento das almas procura também oferecer uma melhor distribuição dos projéteis e ao reduzir as tensões no cano consegue‑se um maior conforto de tiro. Uma espingarda para caçar Todavia ainda hoje se toma com um certo ceticismo este tipo de avanços tecnológicos, geralmente o caçador tende a desconfiar das novidades e não gosta de troca algo que “sempre funcionou”. Pouco a pouco esses benefícios vão‑se tornando evidentes e mesmo os mais céticos admitem que a evolução das espingardas pode realmente ajudar em muitas situações. E não se trata apenas de procurar garantir melhores resultados, mais caça pendurada, mas simplesmente caçar com maior conforto e prazer.

O FUNDAMENTAL: BOAS PRESTAÇÕES DE TIRO

O caçador do século XXI sabe que as boas prestações de tiro são fundamentais e que a responsabilidade desse efeito não está apenas do lado do cartucho, nem da pontaria! A espingarda deve contribuir para melhorar os nossos resultados, com chokes práticos e eficazes podemos ajustar as prestações do cano a necessidades específicas. Mas existe muito mais a descobrir sobre as nossas modernas espingardas.

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