África e Búfalos, que outro continente ou outro animal poderiam ser. Uma área de caça extraordinária, grandes caçadores profissionais e pisteiros fantásticos, todos os ingredientes necessários, para eu ter uma boa caçada!
TEXTO: JOÃO CORCEIRO
FOTOS: AUTOR E LICÍNIA MACHADO (WWW.LICINIAMACHADO.COM)
Com o mundo já curado de uma terrível epidemia, regressei à Zâmbia e às margens do Luangwa, para voltar a caçar Búfalos. À minha chegada estavam alguns velhos amigos, os irmãos Valério e Daniele Ventriglia, o Félix, o Diva, o Timo e muitos outros. Os mesmos, que três anos antes, se tinham despedido de mim de forma emotiva depois de um grande Safari, num momento de enorme felicidade, mas ao mesmo tempo de muitas incertezas, em pleno Covid. Tudo tem um fim, até as coisas más e a vida tem sido muito boa para mim, tem-me dado de volta aquilo que tenho posto nela. Todo o esforço, todos os sacrifícios e todo o trabalho, têm tido o seu retorno. Mais uma vez, passei três semanas no Continente Negro a fazer das coisas de que mais gosto, a gozar o maravilhoso mato africano e a caçar Búfalos! A primeira semana foi passada no Parque Nacional do Kafue, com a Licínia. Este é o maior parque nacional da Zâmbia e um dos maiores de África, cobrindo uma área de cerca de 22.400 km², que abriga centena e meia de espécies. O nome do parque deve-se ao rio Kafue, o maior da região. Na parte norte encontram-se as Planícies de Busanga, que estão completamente alagadas durante metade do ano e em que os pontos mais altos formam pequenas ilhas de floresta. Devido a isso, existem grandes pastagens na época seca, que criam as condições ideais para a vida selvagem As planícies de Busanga são dos lugares mais remotos de África e no final de Setembro, eu e a Licínia, tivemos cerca de 2.000 km² deste paraíso só para nós! Encontrámos uma mistura de outras partes do Continente Negro e espécies menos habituais, como o Oribi, o Bushbuck do Chobe, o Puku, o Lechwe Vermelho, o Roan ou as maiores Palancas Negras Comuns, que alguma vez vi em África. Os soberanos destas planícies são os seus majestosos Leões, conhecidos como “Leões Saltadores”, por saltarem os inúmeros canais de água que correm pelas planícies. Um autêntico paraíso na Terra, que proporcionou à minha mulher, excelentes oportunidades para dar largas ao seu génio de fotógrafa!

PREPARAÇÃO; COM MUITO DETALHE
As duas semanas seguintes, foram passadas em Sengwe, a tal área de caça extraordinária, a caçar os Búfalos do Luangwa! Foi a minha vez de dar largas àquilo que sou… mas esta caçada, tal como todas as outras, começou muito antes de eu pisar terras africanas. Este Safari ficou agendado quase dois anos antes e as minhas caçadas aos Búfalos têm duas décadas. Não há melhor aventura de caça no mundo, os Búfalos fazem parte da verdadeira África selvagem, onde as manadas caminham e onde os Leões rugem e seguem essas manadas. Para mim é uma verdadeira paixão e com a paixão vem o conhecimento, por isso preparo estes Safaris com muito detalhe. Há vários aspetos que têm de ser levados em conta. As escolhas da arma, da mira telescópica, do calibre e das munições, são primordiais. Mas não menos importante é a preparação física, o treino do tiro ou a mentalização. Tudo isto é caçar, toda esta antecipação faz parte dessa viagem, desse Safari e dá-me imenso gozo.
COMECEMOS POR FALAR DA ARMA
Há uma infinidade de opções e até podemos entrar na eterna discussão sobre se devemos utilizar uma “express” ou uma arma de culatra para caçar Búfalos. A primeira tem o segundo tiro mais rápido, a outra tem o terceiro e o quarto tiros mais rápidos, mas sobre isso falarei mais adiante. A minha carabina é uma Remington 700, igual a todas as outras que utilizo na caça, porque são extremamente fiáveis e são as armas a que estou habituado desde sempre. Esta é uma carabina no calibre .375 H&H e cacei quase tudo com ela, do Duiker Azul ao Elefante, com alguns Búfalos pelo meio. É uma arma de linhas clássicas, de madeira e aço oxidado, sem plásticos, mas a que fiz pequenas alterações. A coronha foi “glass bedded”, um processo que consiste em encher com resina epóxica, a zona da caixa da culatra, para que fique devidamente ajustada evitando folgas, mas o cano continua a ser flutuante, para que vibre sempre da mesma forma. Tudo isto contribui para que a arma seja extremamente precisa. Outra característica importante desta carabina é o cano, mais grosso que o usual, que a torna mais pesada, mas também mais precisa, não é tão cómoda de transportar, mas é muito mais agradável de disparar, quando usamos calibres poderosos ou mais fortes que aqueles com que caçamos normalmente. O recuo é dos fatores mais importantes na precisão de um atirador, não é a mesma coisa disparar uma .308 Win, ou uma .375H&H. Mas há formas de mitigar ou diminuir os efeitos do recuo, uma delas é utilizar um amortecedor de coice, um cilindro cheio de um metal pesado, que se coloca no interior da coronha, alinhado com o cano. O orifício deve ter a exata medida do amortecedor, para que não existam folgas e cumpra com a função a que está destinado. Aumentou o peso da carabina, mas também a tornou mais equilibrada, porque contrabalançou o cano. Outra ferramenta para atenuar o recuo é utilizar uma chapa de coice de boa qualidade, o que também fiz. Outro dos efeitos perversos do recuo nestes calibres, é o esforço que provoca nas coronhas provocando rachas na madeira, por isso é conveniente que a coronha seja “cross pinned”, na zona da caixa da culatra. Um trabalho simples, de colocação de dois pinos transversais, que asseguram a solidez da coronha nessa zona mais frágil e no punho. É essencial gostarmos da arma que utilizamos, faz parte da motivação e da mentalização para estas coisas, por isso acrescentei alguns detalhes estéticos; as minhas iniciais numa chapa de prata, a ponta do fuste em ébano e a tampa de punho no mesmo tipo madeira, com a gravação da imagem de um Búfalo num mapa de África, como não podia deixar de ser! Voltando a aspetos mais práticos, mantive as alças de mira abertas, o que para mim é um imperativo numa carabina destinada à Caça Perigosa. Utilizo uma mira telescópica com montagens rápidas, porque há situações, como seja procurar um animal ferido no mato fechado, em que a melhor opção são as alças abertas.
SOBRE A MIRA TELESCÓPICA
Muitos advogam que deve ser uma mira tipo 1-4, aquilo a que normalmente se designa por mira de batida ou mira de Caça Perigosa. Mas as coisas evoluíram e em 2013 a Leupold lançou uma linha de miras telescópicas com um zoom de seis. A 1-6X24 seria a escolha óbvia para os mais puristas, mas a minha .375 H&H merecia a 2-12X42 e assim que apareceu no mercado comprei uma. Ao longo dos anos usei-a para caçar dos quatro aos quatrocentos metros, às vezes quase de noite, como aconteceu com os dois últimos Leopardos. Esta mira é extremamente versátil, tem os aumentos necessários para tiros largos, um campo de visão excelente para tiros curtos e uma luminosidade e índice crepuscular muito bons para caçar na penumbra ao nascer e ao final do dia, ou em matas fechadas com pouca luz.

O REI DOS CALIBRES AFRICANOS
Quanto ao calibre existem muitas opções, mas o .375 H&H é o “Rei dos Calibres Africanos”, nasceu em 1912 e é aquele que mais Búfalos caçou em África. Hoje está mais atual do que nunca, porque existe uma enorme panóplia de balas que o tornam ainda mais versátil. No que diz respeito aos Búfalos, podem ser várias as escolhas de balas acertadas, mas há uma que se destaca, a Swift A-frame. Se olharmos para os catálogos dos fabricantes todas são boas, e a maioria será, mas é preciso saber o que é que pretendemos caçar com elas. Para caçar Búfalos precisamos de um projétil com muita penetração, que provoque um canal de destruição de tecidos bastante largo e que dissipe toda a energia dentro do corpo do animal, sem que saia pelo lado contrário. É isso que o fabricante nos promete, um projétil de expansão controlada com dois núcleos distintos e uma camisa soldada quimicamente, que forma um cogumelo homogéneo até 2,2 vezes o diâmetro do calibre, dependendo da velocidade, e com mais de 95% de retenção do peso, as características que uma bala deve ter para os efeitos que descrevi. Na prática foi o que as A-frames que utilizei fizeram sempre, em quase duas dezenas de Búfalos e em mais de uma centena de Antílopes de médio e grande porte. Mas há gente com muito mais experiência do que eu, quatro dos caçadores profissionais com quem cacei, o Quinn Kloppers, o Quinton, o Coera e o Valerio Ventriglia, somam juntos mais de mil Búfalos e há muito que deixaram de contar os Antílopes que caçaram e viram caçar, com uma infinidade de balas diferentes. Quando alguém lhes pergunta qual a melhor bala para Búfalos, a resposta é a mesma, Swift A-frame, para mim está tudo dito sobre este tema!
DAR TIROS!
Agora que já temos o conjunto arma, mira, calibre e munição escolhido, vem a outra parte importante, saber tirar partido disto tudo e para isso é preciso dar tiros. Quando chegar o momento da verdade, não dá para fazer batota, ou acertamos ou falhamos, só a nós cabe estar preparados. Um Búfalo não é um Antílope ou um Javali, é um animal extremamente perigoso, faz parte dos “Cinco Grandes”. Ruark disse que “olha para nós como se lhe devêssemos dinheiro”, Capstick chamou-lhe “a Morte Negra” e Kevin Robertson considera-o “o Mais Perigoso de África”! A mira tem de estar afinada para as munições e para as distâncias a que vamos caçar, mas não é isso que constitui o treino de tiro para um Safari de Búfalos. A maior parte dos tiros é feito com a ajuda de um tripé, às vezes de joelhos, noutras apoiado num tronco de uma árvore ou até sem qualquer apoio, em situações extremas. São estas posições que temos de treinar entre os dez e os cem metros, as distâncias a que normalmente atiramos aos Búfalos. Usar o tripé e saber ajustá-lo no último momento é outra das nossas tarefas. O guia ou o pisteiro abrem-no à nossa frente, mas somos nós quem tem de apoiar a arma e fazer os ajustes necessários, sem atirar com a “tralha” toda para o chão na pior altura. Podemos olhar para as coisas e pensar que já sabemos usá-las, mas se não treinarmos podemos facilmente “borrar a pintura” com o Búfalo da nossa vida, a poucas dezenas de metros. Outra parte importante deste treino é dobrar o tiro. Enquanto o Búfalo estiver de pé, mesmo depois do primeiro tiro que nos pareceu perfeito, devemos disparar tantos tiros quantos for possível, com o animal parado ou a correr, desde que tenhamos a certeza que é aquele a que atirámos inicialmente. Não é tão fácil como parece, a culatra é de ação longa, provavelmente bastante maior que a da arma com que costumamos caçar. Esse movimento tem de ser feito de forma correta, fluída, quase instintivamente e isso só vai acontecer se treinarmos muito. Pode ser a diferença entre um Búfalo ferido que nunca mais veremos, ou um Búfalo na nossa parede, que sempre que olharmos para ele nos recordará uma das maiores aventuras que alguma vez vivemos! Mas falta chegar aos Búfalos e para isso é preciso caminhar… (Continua no próximo artigo.) Até lá, boas caçadas!
EXPRESS OU FERROLHO?
Uma “double” é mais rápida para dobrar um tiro, mas a partir daí é mais lenta. Para além disso serve para atirar a distâncias curtas, pouco mais de cinquenta metros. Até há quem utilize miras telescópicas neste tipo de arma, mas não servem para tiros largos, devido à convergência dos canos. Estas carabinas, especialmente com grandes calibres, do .450 para cima, são excelentes para caçadores profissionais que têm de parar uma carga a curta distância. A quase totalidade dos caçadores que visitam África, têm pouca ou nenhuma experiência nessas situações e é quase certo que utilizaram estas armas e estes calibres muito poucas vezes, não é a arma a que estão habituados. Uma carabina de ferrolho permite montar uma mira telescópica e pode ser precisa a qualquer distância, o que nos aumenta muito as oportunidades de atirar a um Búfalo. É verdade que é mais lenta no segundo tiro, mas é mais rápida no terceiro e no quarto, o que é muito útil, não tanto numa carga, mas quando temos de dobrar os tiros várias vezes, enquanto o animal foge ferido depois do primeiro tiro. Mas sobre isso, veremos o efeito prático na caça aos Búfalos, na parte final desta história…
