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Os chokes e o alcance de tiro

by Redação

Para quem caça de espingarda, o conhecimento sobre os chokes torna-se essencial para determinar o alcance útil do tiro sobre uma determinada espécie cinegética e as reais possibilidades de cobrá-la, tal como acontece com um praticante de caça maior que deve conhecer a velocidade, energia e trajetória de um projétil.

Começamos pela definição de “choke”; palavra anglo-saxónica que significa “estrangulamento”, pois é precisamente isso que é o choke: uma pequena constrição (redução) do diâmetro interno do cano (alma), que está localizada nos últimos centímetros do comprimento deste, mesmo antes da boca de fogo. Trata-se de uma redução gradual que pode efetivar-se de diferentes formas, conforme o fabricante, mas geralmente é troncocónica (tem a forma de um cone).

PARA QUE SERVE

Um cartucho de projéteis múltiplos para espingarda, dependendo do tamanho dos bagos, leva uma determinada quantidade desses bagos, que pode variar entre algumas unidades e várias centenas. Esses bagos (projéteis), uma vez disparado o cartucho, formam uma “nuvem” de chumbo – vamos considerar este metal por ser o mais comum –, vulgarmente chamada de “chumbada”.

À medida que se afasta da boca de fogo, essa “nuvem” ou “feixe” torna-se mais longo e disperso, de tal forma que a uma determinada distância obtemos uma determinada distribuição a que chamamos “composição do tiro”. Há que ter em conta que a “nuvem” de chumbos não é plana, ou seja, os bagos não alcançam o alvo todos ao mesmo tempo; tem sim uma forma ovalar de vários metros de longitude, dependendo da distância à boca do cano.

À medida que a distância aumenta, o espaço que fica entre cada bago vai crescendo, até chegar a um limite em que a peça que disparamos recebe um número de impactos tão escasso que apenas ficará ferida, sem grandes hipóteses de a cobrarmos, ou inclusive acabaremos por a errar completamente.

Com os chokes, nos seus distintos estrangulamentos, tentaremos controlar a densidade do “feixe” de chumbo, de tal forma que os espaços entre bagos sejam menores e assim obtemos um incremento de probabilidades de cobrar a peça de caça, ou, pelo contrário, conseguindo uma maior dispersão de modo a não a despedaçar.

CARACTERÍSTICAS

O que nos chama a atenção num choke, em primeiro lugar, é o seu comprimento, sobre o qual existem diferentes critérios e opiniões. Uns dizem que quanto mais comprido for o choke, mais uniforme será a distribuição de chumbo (a “chumbada”), enquanto outros opinam que, para fazer o efeito desejado, bastam uns centímetros de comprimento.

Também há quem defenda que o comprimento de um choke deve ter uma relação com o seu estrangulamento; ou seja, um choke cilíndrico deve ter apenas um par de centímetros, enquanto um “full choke” deve ter cerca de dez centímetros. Esta última opinião, de que o comprimento do choke deve estar relacionado com o seu estrangulamento, parece reunir maior consenso, pois uma redução mais gradual do diâmetro deverá provocar menor perturbação à chumbada.

Existe quem acredite que, com as buchas plásticas de copo, o efeito do choke é atenuado. Na verdade, hoje é fácil comprovar – com recurso a câmaras de alta tecnologia – que o choke funciona mesmo com esse tipo de buchas. O que pode acontecer é que podemos obter resultados diferentes; por exemplo, um choke *** com uma bucha de copo em plástico mais duro ou de abertura retardada pode oferecer um resultado muito semelhante a um “full choke”.

O que se aconselha é que cada um, caçador ou atirador, experimente com diferentes tipos de cartuchos o comportamento dos chokes da sua espingarda. Na prática, podemos afirmar que, com cartuchos modernos carregados com bucha de copo em plástico, o choke funciona.

Convém esclarecer que as “marcas” que nos indicam o tipo de choke são meramente indicativas, não devendo ser tomadas à letra, já que o comportamento real pode desviar-se do padrão. O que podemos afirmar é que, com uma mesma munição e o mesmo cano, os chokes irão oferecer uma distribuição mais aberta ou mais fechada.

PRINCÍPIOS FÍSICOS DO CHOKE

O princípio físico em que se fundamenta o choke é o “efeito Venturi”, apesar de ser um conceito aplicado a fluidos em movimento. Para entender este efeito, tomamos como exemplo uma mangueira com o clássico “bico” que nos permite fechar ou abrir, conforme desejamos que a água chegue mais longe e com mais força num caudal mais fino, ou mais perto, com menos força e mais dispersa.

De forma similar, salvando as diferenças físicas de consistência e densidade do chumbo comparadas com o comportamento dos fluidos, podemos analisar o comportamento da chumbada no interior do cano.

Ao contrário do que acontece com os fluidos, os bagos de chumbo, ao passar pelo constrangimento (o choke), não aumentam a sua velocidade. E também não vão chegar mais longe, ao contrário do que é corrente pensar. O que vai acontecer, como consequência do estrangulamento, é a produção de uma concentração semelhante à das partículas de água numa mangueira.

Numa espingarda, o maior alcance útil não se consegue com maior velocidade dos bagos de chumbo, mas sim pelo aumento da concentração desses bagos, que permite um incremento do efeito letal a maior distância.

Seguindo este princípio, montando um choke mais apertado no cano de uma espingarda, podemos criar uma “chumbada” mais densa, de forma que a distância entre bagos seja menor e, assim, atingir de forma mais eficaz (maior letalidade) uma peça de caça a maior distância do que com um choke cilíndrico.

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