Durante o ato do cobro, o cão deve apanhar, trazer e entregar a peça que abatemos sim, mas com alegria, e nunca com medo. Pelo menos é essa a filosofia de treino que tenho presente e a que pretendo transmitir. Isso não quer dizer que não possam existir as pressões – claro que podem existir e existem –, mas se procurarmos sempre a resposta positiva para premiar, mesmo que seja depois de um castigo, vamos conseguir aquilo que queremos.
Quando trabalhamos com calma e paciência, mas os “traumas” do cão – que, obviamente, fomos nós que provocamos – nos impedem de chegarmos ao nosso objetivo, então temos de recorrer ao “Plano B”. Este plano baseia-se na aplicação de metodologias coercivas (metodologias de manipulação). Trata-se de ensinar a manter algo na boca. Se conseguirmos que agarre e não mova a mandíbula, conseguimos indiretamente que não mastigue e, portanto, que nos traga a peça.
COMO FAZÊ-LO?
Começamos sentados, nós em frente ao cão, e começamos sempre com uma peça congelada com um tamanho adequado, ou seja, não vamos usar peças demasiado pequenas que incitem e facilitem que o cão mastigue a mesma. Mostramos-lhe a peça e mandamos cobrar a peça na nossa mão (já vos disse que os cães com este problema tendem a ser grandes cobradores, pelo que não haverá problema para ele apanhar a peça). Nesse preciso momento, a nossa mão direita vai até à sua mandíbula inferior, que é a que tem mobilidade, e a mão esquerda à sua cabeça, para premiar melhor, recompensar e/ou castigar se for necessário, que será. A nossa mão direita é a que percecionará se ele move a mandíbula, momento em que fazemos pressão com ela, para evitar esse movimento e, ao mesmo tempo, dizemos “não” (convém ter o “não” já previamente condicionado). Se cessa os seus esforços, premiamos com a voz “muito bem” (convém também condicioná-lo antes), e acariciamo-lo com a mão esquerda que temos na sua cabeça e que também nos ajudará a aguentar. Se é um cão grande e com força, tipo braco, vai-nos fazer “suar”, pelo que temos de agarrar com força, mas sem o magoar.

E SE ELE NÃO DESISITIR, MESMO QUE ESTEJAMOS A SEGURAR A SUA MANDÍBULA COM A NOSSA MÃO?
Com a mão esquerda e sem soltar a direita, damos-lhe uma “palmada”, ao mesmo tempo que dizemos “não”. Disse “palmada” porque era aquilo que as nossas avós nos davam, e é algo que nos magoa mais moralmente do que fisicamente. Percebido? Ou seja, não estamos a bater no cão, por isso cuidado com a brutalidade. Perante o castigo, o cão aprende rapidamente. Aflora o instinto de evitação, mas claro, é esse mesmo instinto que vai fazer com que não mastigue e que pode levar a que, na vez seguinte, não queira tirar a peça de caça da nossa mão. Se pensássemos nisso, teríamos de forçar o cobro, abrindo bem a boca ao cão, obrigando-o a fazê-lo através de um reforço negativo. Uma vez que já lhe demos a “palmada” e já conseguimos a tranquilidade que procurávamos, então passamos ao prémio. Premiamos efusivamente com a voz e a mesma mão que aplicou a “palmada”, agora acaricia. Era aquilo que vos dizia, procurar sempre premiar depois do estímulo aplicado. Feito isto, soltamos a mão direita da sua mandíbula inferior, lentamente, para evitar que cuspa a peça, e se tentar cuspir ou soltar dizemos “não”, e pomos a mão de novo. Como conseguimos essa tranquilidade sem a nossa mão na sua mandíbula? Pois premiamos e, muito importante, pedimos-lhe a peça “dá cá”, enquanto pegamos nesta pelas patas e tiramos levemente da boca do cão. Agora só teríamos de repetir este exercício, já que a forma que os cães associam as condutas é a base de condicionamentos e repetições. A seguinte fase seria fazer este mesmo exercício, mas com uma peça de caça que não esteja congelada. E se o problema da boca dura for com peças pequenas? Pois teremos então de trabalhar com esse tipo de peças. Há que ter em conta que esta metodologia é muito idêntica ao cobro forçado, mas com uma finalidade diferente, e ainda que exerça muito menos pressão que o cobro forçado, também é muito impactante, sobretudo psicologicamente. Portanto, é muito importante saber liderar, não fazer sessões com mais de cinco minutos nem mais de duas sessões por dia e, claro, deixarmos os problemas em casa antes de fazermos qualquer treino que requeira contacto físico com o nosso cão.
METODOLOGIAS POPULARES
Sempre me ouviram/leram a falar mal das metodologias populares por carecem de rigor científico, de base científica. Isto quer dizer que se passam as possíveis associações pelo “arco do triunfo”. Por favor, lembrem-se sempre da lei da conduta animal de Thorndike: “Qualquer conduta premiada tende a repetir-se e qualquer conduta castigada tende a erradicar-se ou desviar-se para outra”. – Colocar sal na boca. Para provocar o vómito quando o cão engole uma peça. Pode efetivamente funcionar e o cão associa a conduta de engolir com o vómito e deixa de engolir, mas… e se associar o vómito com a peça? Pois nunca mais voltará a cobrar na sua vida. Além disso, não é recomendável porque pode provocar problemas gástricos e, inclusive, a morte por torção de estomago, caso excedam na quantidade (perguntem a um veterinário). – Utilizar a coleira de ensino com o intuito de que deixe de mastigar a peça ou engoli-la. Como já devem ter percebido, isto vai levar a que repulse a peça, que é aquilo que provoca o castigo. Os cães podem associar como as nossas mentes querem, ou não. Aconselho-vos a que, se há uma possibilidade de estragar então não o façam. Se querem jogar à roleta, vão ao casino.











