O cão, graças à seleção das raças, é uma espécie adaptada a praticamente todos os climas terrestres, estendendo-se desde os tórridos desertos até aos polos mais gelados. Não obstante, a maioria dos cães tolera pior o calor que o frio, especialmente durante o exercício, como acontece com os cães de caça.
TEXTO: MANUEL LÁZARO RUBIO (MÉDICO VETERINÁRIO)
A temporada geral de caça coincide com os meses de outono-inverno, onde a temperatura é logicamente mais fria. Sem dúvida que a caça na época estival, que abrange um pouco do verão, desenvolve-se com temperaturas altas na maioria das zonas onde se caça. Também é importante lembrar que nos inícios do outono, quando se reativa a atividade, em muitos sítios ainda pode estar calor o que, aliado a uma forma física não tão boa ainda nos cães, principalmente nos cães de matilha, levará a que este seja outro momento delicado. É importante preparar o nosso cão antes da atividade cinegética em qualquer época do ano, mas no verão isso é imprescindível e inclusive vital, não sendo este último um qualificativo de exagero. A entrega absoluta de muitos exemplares a esta paixão pode pôr em grave risco a sua vida se não formos suficientemente previsores de situações.

FALTA DE PREPARAÇÃO FÍSICA
O cão deveria manter uma certa forma física durante todo o ano, evitando que engorde em excesso quando não vamos caçar. A obesidade e o exercício físico estão contraindicados, especialmente se este for feito em épocas de calor. Para ficar no ponto, teríamos de levar o nosso cão a dar longos passeios tantas vezes quantas fosse possível. Desta forma, permitiríamos que tivesse uma maior resistência física para as próximas jornadas de caça. Um animal em boa forma tolera muito melhor o exercício e é capaz de eliminar o calor mediante a respiração de forma mais eficiente. Como falamos antes, a paixão pela caça é tão grande que muitos cães, antes de pararem para descansar, são capazes de desfalecer pelo esforço. É fácil percebermos que o treino prévio é uma forma relativamente simples de solucionar este problema se falarmos de cães de caça menor, que podemos passear com facilidade e isso só dependerá da nossa vontade. Bem diferente é o que acontece neste momento com os donos das matilhas, que cada vez têm menos sítios para poderem soltar os cães todos.
ESPIGAS DE GRAMÍNEAS
A caça em campos de cereal ou em terrenos com muita vegetação e erva fazem com que os cães, especialmente os de pelo comprido, se encham de praganas e outras coisas. Estas praganas podem entrar através dos olhos, ouvidos, espaços interdigitais, etc., ocasionando patologias graves; por isso é muito importante ver bem o nosso cão quando terminamos a jornada de caça. As espigas de gramíneas silvestres estão presentes em qualquer terreno: campo, parques, inclusivo nos alcorques das cidades. Diante dos primeiros sintomas, como por exemplo sacudir demasiado a cabeça, olhos fechados, feridas supurativas nas extremidades, espirros repentinos, fortes, etc., devemos levar rapidamente o cão ao veterinário pois se não extraírem a pragana a tempo, poderão surgir complicações muito graves.

TRANSPORTE DOS CÃES
O transporte dos cães é sempre um momento delicado e de gran de perigo, sobretudo nos cães de matilha, mas isto é extensível às viagens em qualquer tipo de reboque ou quando viajam vá rios cães juntos. É muito importante ter em conta as temperaturas elevadas que se produzem no interior de um carro ou reboque (mais de 60º) e basta pouco tempo, e pode acontecer inclusive à sombra se houver vários exemplares juntos. Esta é uma das principais causas do chamado “golpe de calor”. Devemos ter especial cuidado para evitar isto, não confiar nos vidros abertos, em sombras ou em períodos de tempo que supomos serem curtos (demora mos sempre mais do que aquilo que achamos).
PLANTA DAS ALMOFADAS
o exercício físico é a melhor forma de endurecer as plantas das almofadas, algo de extrema importância, pois as assaduras são frequentes nas primeiras jornadas de caça. durante o tempo quente, o terreno seco é mais duro e abrasivo, sendo mais frequente este tipo de lesões. Estas assaduras produzem um esvaziamento na capa córnea que reveste as almofadas, levantando-se, deSprendendo-se e deixando com isso as abundantes terminações nervosas ao ar, com uma dor intensa subjacente. Há animais que na sua primeira saída de caça fazem feridas tão graves que literalmente os impedem de chegar ao sítio onde temos o carro. Existem no mercado produtos que, administradoS durante algumas semanas antes da caça, endurecem notavelmente as almofadas, podendo ser uma ajuda para evitar as feridas, mas insisto – o treino físico é a melhor prevenção.
