Um fenómeno interessante na caça ao javali é que a par do crescimento populacional da espécie e sua abundância em todo o território da Península Ibérica, também se verificou o aumento de zonas cercadas criadas especificamente para a sua caça. Poderá parecer um contrassenso que com mais javalis selvagens (ou melhor, livres) para caçar tenha crescido o interesse por este tipo de atividade em áreas com rede cinegética. Contudo, a “febre de caça ao javali” viciou muitos caçadores, que estão dispostos a pagar – e bem! – para caçar porcos, muitos e com grandes troféus.
As zonas de caça cercadas com malha cinegética tiveram um papel muito importante na preservação e expansão dos cervídeos, veado e gamo, principalmente, em Portugal. Durante décadas apenas se caçou a estas duas espécies nessas zonas de caça fechadas e com a fuga de alguns exemplares dessas áreas surgiram pequenos núcleos de populações que rapidamente cresceram e repovoaram muitas regiões, de norte a sul do nosso país. Com os javalis a situação é bem diferente! Primeiro, a espécie é prolifera em todo o território nacional continental; e segundo, a “gestão” de efetivos no interior de um cercão de javalis é bem diferente daquela que até agora conhecíamos nas áreas fechadas para cervídeos.
PEQUENOS, GRANDES…
Vamos então falar de cercões, pequenos e grandes, de zonas de caça maior e de diversas experiências reais, não de conjeturas e faladuras, mas sim de vivências no campo; de javalis com grandes troféus de do terreno aberto (sem cercas) “entraram” para áreas fechadas, mas também de outros criados em “intensivo” – com gado – e que chegam por vezes à caçada em camionetas; e ainda dos cruzados com porco doméstico para dar maior rendimento de criação, mas também daqueles que foram criteriosamente selecionados pela sua genética para oferecerem um par de navalhas de acordo com as expetativas dos frequentadores dos melhores cercões que encontramos na Península Ibérica. Tudo isto tem muitas conotações económicas, veterinárias, legais, de prestígio, de gestão… em suma, o que interessa é garantir resultados, idealmente cumprir o previsto, quase matematicamente. Então o que é um cercão? No jargão cinegético, ou seja, na linguagem dos caçadores, chama-se “cercão” a uma zona de caça fechada com malha cinegética, mas que habitualmente tem dimensões mais reduzidas do que as tradicionais zonas de caça fechadas – sendo “fechada” a zona de caça que impede a saída de uma ou mais espécies de caça maior. Os referidos cercões podem ter veados, gamos e muflões, além dos javalis, mas outro aspeto que os diferenciam é a densidade proporcionalmente às suas dimensões. E é precisamente esse aspeto que torna a sua gestão muito diferente.

OS CERCÕES DE JAVALIS
A alta densidade de javalis por unidade de superfície exige um aporte de alimento suplementar importante, assim como de água, assentando essencialmente em pontos artificiais para conseguir a sobrevivência dos exemplares existentes. Toda esta artificialidade do processo parece não incomodar os caçadores que frequentam estas zonas de caça e inclusive criam expetativas – e sonhos – em muitos outros que não têm capacidade financeira para participarem no tipo de eventos cinegéticos criados nestes espaços. Inclusive, as caçadas aos javalis em cercões parecem ter mais interessados do que as expedições de caça em montanhas remotas em busca de carneiros e cabras selvagens, em imensas paragens livres de qualquer tipo de vedações. Talvez seja na segurança dos resultados que os caçadores encontrem boa parte da motivação para caçar nestas zonas limitadas e por vezes povoadas com animais criados para o efeito. E nem sequer a pureza genética dos exemplares caçados parece importar para muitos dos que frequentam os cercões. De seguida vamos oferecer o relato de três cercões vividos por colaboradores da nossa publicação e que são exemplos claros deste tipo de zonas de caça.
UM CERCÃO ENIGMÁTICO
Estávamos juntos a um dos portões metálicos aguardando que o guarda da zona de caça os abrisse. Era um cercão de javalis bastante amplo, com cerca de 400 hectares estendidos por uma encosta de azinheiras cerradas, contra um pequeno promontório na parte baixa um pouco mais limpa. As zonas de tiro (“tiraderos”) eram naturais, sendo dispostas a armadas em função da orografia, com postos em cada lado dos vales. Um lugar bonito no que diz respeito ao coberto vegetal, paisagem e disposição orográfica. Passo das ladras, dos tiros e dos lances diretamente para o plantel de troféus, das “bocas”, como agora se referem os caçadores aos troféus do javali. Apesar de ser um cercão economicamente acessível (claro que a palavra “acessível” é sempre relativa), ou pelo menos não tão dispendioso, os participantes iam ficando também eles de boca aberta ao verem chegar os porcos à junta; eram javalis grandes, puros, bonitos e com navalhas e amoladeiras descomunais. Nunca tínhamos visto tanta qualidade e quantidade juntas. A expetativa criada para ver o resultado fez com que todos os participantes tenham aguardado pelo final – e não arrancado imediatamente após o serviço de catering. Aquilo não tinha explicação racional… apenas ali estavam uma dúzia de javalis que não pertenciam àquele quadro de caça (um par de fêmeas e uns machotes de troféus curtos), todos os restantes eram troféus no verdadeiro sentido da palavra, “arochos” puros, de aspeto compacto e primitivo, todos iguais, com navalhas longas, afiadas e grossas, sobre amoladeiras exuberantes e curvadas, como na natureza mais virgem. Vários caçadores quiseram levar a pele, para imortalizar estes magníficos exemplares de javali. Ninguém tinha previsto aquele resultado… Meses depois as autoridades receberam uma denúncia das zonas de caça limítrofes que o cercão estava a capturar javalis para o seu interior, com “passagens” que permitiam a entrada e não a saída dos animais.
UM CERCÃO PREVISÍVEL
Uma manhã húmida do mês de novembro, com alguma chuva a sair das nuvens baixas que víamos sobre a serra. Desde o monte da herdade olhávamos para o céu na expetativa de se dar início à montaria. O nevoeiro cai, não existem condições de segurança e atrasa-se o sorteio… A meio da manhã a coisa tem pinta de ir melhorar. Depois de uma breve palestra dá-se início ao sorteio; “Assim que o tempo permitir arrancamos para a mancha” – alerta o “orgânico”. E, depois de um ligeiro vento repentino soprando desde o fundo do vale, o céu foi abrindo, dissipando as nuvens rasas, prometendo uma manhã sem água. Os postos estavam colocados em locais com balcões naturais, embora com pouca visibilidade devido à vegetação existente. Quando entraram as matilhas as ladras começaram intensamente em toda a mancha, os porcos e cães corriam em todas as direções, os cães perseguiam varas de javalis e poucos porcos se isolavam. Mesmo com alguns disparos dirigidos aos exemplares maiores dessas varas, poucos se desgarravam e a montaria continuou assim. Quando os cães cercavam os grupos de javalis davam-se os inevitáveis agarres, e mesmo não querendo entrar ao remate aos navalheiros, os matilheiros tiveram de resolver várias situações para evitar o pior. Todos vimos porcos que pouco tinham de javali puro, inclusive foram rematados vários porcos malhados e com pelagem não condizente com o Sus scrofa que conhecemos. Pior, alguns desses exemplares mostravam palha agarrada ao pelo… Portanto, a coisa terminou ainda pior do que começou… houve quem se tenha recusado a disparar e, claro, no final surgiram as inevitáveis discussões com o organizador. Contudo, o resultado estava de acordo com o “garantido”; ali estavam no quadro final os porcos anunciados no programa que nos foi oferecido.

UM CERCÃO ATERRADOR
Foi aterrador para os cães e matilheiros, e talvez para um ou outro caçador, para a maioria foi a mais memorável caçada das suas vidas. O proprietário não estava muito preocupado com a rentabilidade do evento, antes pelo seu resultado e repercussão mediática. No interior de uma zona de caça cercada (com malha cinegética) foi construído um cercão com 250 hectares onde se soltaram javalis previamente selecionados – com sangue de leste, ouvia-se… Durante sete anos foram selecionados os melhores exemplares dessa cruza. Naturalmente, só podemos ter uma leve noção do que terá sido a quantidade de comida colocada no interior do cercão durante esse período. E por isso mesmo, o preço da caçada (alto, muito alto) era inegociável, mesmo que não significasse para o proprietário o retorno total do investimento. Depois de algumas propostas de “orgânicas falidas”, como referiu o proprietário no discurso matinal no dia da caçada, lá apareceu alguém que se aproximou da cifra que permitia participar neste jogo. Sete anos sem caçar colocavam dúvidas sobre o comportamento daqueles javalis quando encontrassem os podengos, grifons e dogues das matilhas; não se sabia se os porcos desatariam em corrida sem se desagruparem, ou se os machos maiores se iriam isolar tentando salvar o pelo ou ainda, pelo contrário, se arrancariam a fazer frente (e mossa) às matilhas. O resultado foi o caos… os poderosos navalheiros investiam contra os cães mais valentes, que não desistiam do confronto, causando a morte de vários dos bravos exemplares das matilhas. Os maiores porcos, machos e fêmeas, também investiam contra os matilheiros. Logicamente, estes “problemas” foram esquecidos por aqueles que na junta olhavam para o quadro de caça e murmuravam “ouro, ouro, ouro…”. Nem foi preciso abrir-lhes a boca.










