Um documentário realizado em 1952, em Espanha, mostra-nos como eram feitas as batidas às perdizes naquela altura. Um vídeo a não perder, para quem gosta de caça.
Perdizes
Não são muitos os que podem participar numa tradicional batida de perdizes. Primeiro porque não existem muitos locais com boa densidade de aves – mesmo de repovoamento –, e segundo porque é sempre algo dispendioso. Mas isso não quer dizer que não tenhamos a oportunidade de apanhar “pássaros de bico” ou “atravessados” atirando a partir de um posto, que pode acontecer nas clássicas e mais comuns “enxotas”. Vamos ver o que é preciso ter em conta para mandarmos cá para baixo um desses pássaros endiabrados que comem cartuchos.
Atualmente as batidas de perdizes são uma opção válida em poucas zonas de caça e raros são os locais que ainda fazem gala das tradições e costumes deste processo de caça. Basicamente, participar numa verdadeira batida é um privilégio. Em muitas zonas de caça, principalmente no Sul, é cada vez mais comum fazerem‑se pequenas enxotas para aproveitar algumas perdizes que de outra forma (a caçar de salto) dificilmente darão mão. Entre o grupo de caçadores sorteiam‑se algumas portas que colocadas em locais estratégicos tentam aproveitar os pássaros que melhor conhecem o terreno e têm as suas querenças bem estudadas. Em novembro as perdizes estão mais bem emplumadas, com mais força e autonomia, preparadas para enganar as linhas de caçadores de salto e escaparem aos tiros das portas. Mas é também a partir de agora que cada lance passa a ter um gosto diferente e o cobro de cada peça se torna em algo muito mais importante do que um simples exercício de tiro.
A entrada e os pássaros cruzados
O desafio destas perdizes, sejam numa exclusiva e clássica batida ou numa caçada mais modesta, é poder contar com todos os nossos recursos, aprendizagem e habilidade para aproveitar cada lance. Um dos erros mais frequentes é chegar ao posto e procurar uma posição que nos parece confortável sem avaliar concretamente o nosso campo de tiro, os limites e obstáculos, não procurar as zonas limpas onde podemos ver melhor os pássaros. Depois a caçada começa, entram as primeiras perdizes e… pouco tempo fica para poder corrigir ou melhorar a posição no posto. Quando não se conhece a zona de caça e as querenças das perdizes tudo fica mais difícil, por isso se torna importante a presença do secretário. Não se trata “apenas” de alguém que ajuda a carregar o estojo e a marcar as peças caídas, mas sim de uma ajuda importante para nos indicar as querenças da caça. Dessa forma ficaremos com valiosa informação para melhor nos colocarmos no posto e nos conseguirmos mover com elasticidade e eficácia nos movimentos de tiro, inclusive com elegância! Uma vez analisada a zona de tiro temos de nos ligar ao campo, procurando referências de experiências anteriores que possam ser colocadas em prática nesse momento: Como entrarão aqui as perdizes de bico? Será mais fácil aproveitar pássaros cruzados aqui… ou ali? Tenho uma grande variabilidade de distância de tiro? Onde devo limitar a rotação do meu corpo ao acompanhar o voo das perdizes?

Ganhar confiança
É esse o segredo, inclusive para os que estão mais treinados com muitos disparos nos campos de tiro em Percurso de Caça ou Compal, disciplinas de tiro que são excelentes para colocar em prática o “jogo de cintura” – o swing – e os descontos de tiro, embora agora seja preciso ajustar velocidades, que como sabemos, na caça são bastante variáveis; cada pássaro, cada lance e cada momento será diferente. A caça é assim… Optar por atirar a todos os pássaros que nos entrem a (mais ou menos) boa distância pode não ser a melhor estratégia, pois a tentativa de procurar cobrar o maior número de peças irá ocupar‑nos demasiado a capacidade de raciocínio e clarividência. Ficaremos sempre condicionados com a necessidade de cobrar mais caça e melhor – com menos tiros. Cairemos na frustração, numa predisposição negativa perante os falhanços quase contínuos e pesarão mais os erros do que os tiros bem executados, perdendo‑se assim a referência do que é verdadeiramente importante; cada lance, cada perdiz. Ir aos pássaros “seguros” permite‑nos ganhar confiança e segurança nos tiros, avaliar bem as trajetórias das perdizes e os descontos a efetuar, assim vamos avançando para os lances mais exigentes. O movimento dos pés é importante para garantir o aproveitamento da melhor rotação do corpo e assim ir às perdizes mais esquivas e rápidas. Temos que ter o encare mecanizado, preciso e ajustado.
Um desafio
Um dos postos mais difíceis é aquele que não permite acompanhar a trajetória das perdizes durante algum tempo. São os postos de “assomada”, em que as perdizes comem os poucos metros à nossa frente em frações de segundo. Nestes postos, com vegetação pela frente (por vezes uma densa mancha de pinheiros) que impede ver com antecipação a entrada das perdizes são os que põem à prova a nossa capacidade de receber os pássaros com eficácia e gerir os possíveis lances, alguns muito seguidos. Nestes postos, se o caçador está distraído ou nervoso, sem a necessária atenção e clama, as perdizes “comem” o espaço com uma rapidez incrível e, uma após outra, vão ser erradas, o que influenciará de forma direta a autoconfiança. Um terço do êxito destes postos é permanecer numa boa posição e com atenção suficiente para receber cada perdiz, com a agilidade na sequência de tiro. Não deixar passar Um dos grandes problemas; deixar passar as perdizes. Primeiro, revela que estamos lentos; segundo, será sempre um tiro desaconselhado, pois frequentemente vamos ter de fazer rotações exageradas, mudar de posição e, naturalmente, virar as costas à entrada. A trajetória das perdizes passadas pode ser complicada, não nos devemos esquecer que uma perdiz ganha muita distância em poucos décimos de segundo. E, como já referimos, como vamos atender a uma nova entrada se estivermos de costas voltadas? Para aproveitar uma perdiz passada é crucial contar com uma posição corporal que permita reagir muito rápido e muitas vezes vamos disparar com encares rapidíssimos e apenas preocupados em tapar o pássaro. Se estivermos distraídos, falando com o secretário ou olhando para o telefone, pouco podemos fazer para aproveitar os pássaros mais difíceis. E serão estes que nos ficarão para sempre na memória.
Conselhos finais
Há que otimizar a sequência de tiro e não ficar obcecado com as médias de cartuchos por peça cobrada. É fundamental permanecer em guarda média, esperando pelos pássaros e observar bem a zona de tiro, lance atrás de lance, e mesmo assim seremos surpreendidos por uma perdiz. É esta a beleza desta caça!
Marrocos já é um destino conhecido para os caçadores portugueses, mas quando se fala neste país africano ouve-se “caça às rolas”. Pois bem, Marrocos tem muito mais e alguns “segredos” por descobrir.
Não é que não goste de caçar às rolas, mas os programas de dois ou três dias de caça monotemáticos não me atraem como algo que me dê a possibilidade de variar o tipo de atividade. Por esse motivo, Marrocos tinha ficado de lado, até agora.
De salto e com cães de parar
Foi assim que começou a descrição de Gonçalo Mano, da Vidigal Hunting, sobre o programa de caça em Marrocos que me propôs: “Vamos caçar de salto e com cães de parar”. Foi o suficiente para me deixar a ouvir o restante da proposta. O plano seria fazer um programa diverso, com três dias de caça a outras tantas espécies diferentes: galinholas, no primeiro dia; codornizes, no segundo; e para terminar (em beleza!), um dia de caça à perdiz “Gambra”. Para quem, como eu, gosta de “variar”, o programa de caça não podia ser melhor. O próximo passo foi encontrar datas, algo sempre muito complicado para mim e apenas seria possível em fevereiro, ao que fui avisado: “É o final da época, já com as migradoras em viagem…”. Não há outra possibilidade, por isso, assumi o risco.

Perto e bom caminho
Por vezes, os preços dos voos acabam por condicionar alguns programas de caça, além de que, no meu caso, a duração da viagem também já me deixa a pensar. Viajar de avião enfada-me cada vez mais. Marrocos é precisamente aquilo que chamamos de “perto e bom caminho”, uma hora e meia de voo no trajeto Lisboa-Marraquexe. Perfeito! O bom tempo que mesmo em fevereiro fazia nos locais onde iríamos caçar também não obrigou a preparar qualquer tipo de equipamento específico, roupa para caçar em “meia-estação”, aquilo que chamamos “nem frio, nem calor”.
Galinholas com o homem dos pointer
Já tive oportunidade de caçar às galinholas em diversos países, desde as Ilhas Britânicas, passando pela Escandinávia, até aos países de Leste. Num comentário a uma das minhas publicações nas redes sociais, um amigo caçador afirmava: “caçar galinholas sem os meus cães, não me satisfaz”. Acredito que assim seja, principalmente para os aficionados desta caça. Também eu confesso que os lances mais intensos vividos com o meu fiel companheiro de quatro patas têm um “sabor” diferente, mesmo não sendo um verdadeiro aficionado da caça às galinholas – prefiro terrenos com mais largueza… Um dos pontos que considero mais importante num programa deste tipo, de caça de salto, particularmente com cães de parar, é a qualidade dos cães. Este “detalhe” pode fazer toda a diferença e posso dizer que em Marrocos tive a oportunidade de ver caçar duas (cadelas) pointer simplesmente “bombásticas”. O nosso guia foi Khalid Pointerman, um caçador marroquino apaixonado (fanático!) pela caça à galinhola e com cães fantásticos.

Olhando para a paisagem onde começamos o primeiro dia de caça, não fossem as palmeiras-anãs, diria que estava no Alentejo, uma extensa área de sobreiros novos, sargaços e de vez em quando um silvado. O terreno levemente ondulado permitia aos cães caçarem com laços bem extensos e com uma velocidade impressionante! Acreditem, era difícil de acompanhar só com o olhar, quanto mais pensar caçar ao pé destes pointer. Coloquei em dúvida a eficácia de tal rapidez, tínhamos uns cinco minutos de caça, quando em terreno passado pelos cães me saltou uma galinhola aos pés, à qual não atirei. Khalid chegou ao pé de mim e agradeceu. Estávamos apresentados! Não demorou a termos a primeira oportunidade, uma das pointer deu sinal e… estancou! A outra efetua um patrón perfeito! Posiciono-me… dá-se o levante, deixo voar o pássaro e… à ordem arranca a pointer para o cobro. E tenho a minha primeira “Dama dos Bosques” africana nas mãos. A minha caçada estava concluída. Tenho esta mania, quando tudo está perfeito… fica assim! Mas para os meus companheiros a caçada continuou conseguindo-se praticamente uma dezena de levantes durante a manhã, com algumas cobradas, claro.
A tarde seria passada a caçar num terreno completamente diferente, com estevas altas, sobreiros dispersos e nas baixas uns sargaços. Mais uma vez, parecia estarmos em casa, numa zona mais difícil de caçar e de assistir aos cães, caça-se ao som dos beepers, como também acontece em muitos locais por aqui. Confesso que já visitei locais com maior densidade de pássaros – na Escócia e em Gales – mas a experiência de caça em Marrocos é incomparavelmente mais agradável, principalmente pelo clima (nada de “goretexes”) e pela qualidade dos cães que nos proporcionaram lances incríveis.

Codornizes
Segundo dia. Deslocámo-nos a uma zona de arroz, com mais de 16.000 hectares, conforme nos informou Mehdi Oualid, responsável pela empresa TL Chasse, o parceiro marroquino da organização portuguesa Vidigal Hunting. São campos que depois da colheita do arroz estão cobertos de luzerna, agora já em condições de corte. Este era o último dia de caça à codorniz do calendário venatório, portanto Mehdi pediu-nos para não colocarmos as expetativas muito altas. Mais do que quantidade, preferimos qualidade. E tivemos. Impressionou-me o profissionalismo dos guias e a qualidade dos seus cães, bem tratados e apresentados, a caçar a preceito. Desta vez tínhamos setter, breton e um braco. O trabalho dos cães estava dificultado pela altura da luzerna e as codornizes, bravas e “ratas”, como sabemos, davam baile aos cães… e aos caçadores… Talvez o trio de espingardas não tenha estado no seu melhor… A melhor época para a “pequena africana” será dezembro e pode ser combinada com as narcejas. Já apontei na agenda!

Perdiz “Gambra”
A paisagem, mais uma vez, mudou radicalmente. Estávamos numa vasta área coberta por palmeiras-anãs, recortada por alguns campos de cereal e com um “oued” (leito de rio seco) ao fundo. Mais uma vez, acompanhados pelos voluntariosos guias e os seus magníficos cães. Não me canso de referir este “detalhe”, pois acreditem que marcou a diferença nesta viagem, tanto pela qualidade como beleza dos exemplares. A perdiz Gambra (Alectoris barbara), ou perdiz-moura, é endémica do Norte de África, e é um dos ex-libris da caça em Marrocos, principalmente no Rife de Marrocos, as montanhas da região norte do país, embora possa ser encontrada em diferentes tipos de habitat.

Desta vez caçamo-las cá mais em baixo. Rapidamente demos conta do comportamento mais gregário desta perdiz africana, a andar mais embandada e a “agarrar-se” mais, o que deu paragens fabulosas aos cães. Ao arranque soam os guizos das asas, como as nossas. É uma ave magnífica, como o são todas as perdizes, a diferença de coloração das penas e a paisagem exótica onde caçamos tornaram o momento especial.

Regresso marcado!
Facilmente coloco Marrocos no primeiro lugar dos destinos internacionais de caça de salto, por diversos motivos. Aqui tão perto, este país do Norte de África permite-nos caçar como muitos de nós caçaram durante anos, descontraidamente, de salto com cães de parar e com suficiente abundância de caça. Acredito que não será um país para “bater records” nem nas galinholas, nem nas codornizes e nem sequer nas perdizes, que têm limites de captura rigorosos.

Como já referi, a qualidade sobrepõe-se à quantidade. Tivemos dias muito divertidos, sempre a ver caça, com bom tempo, boa comida e bastante descontraídos. Já coloquei na agenda o regresso em dezembro!

A perdiz “Gambra”
Nome árabe: H’jal
A perdiz-moura é localmente denominada de perdiz “Gambra”. Trata-se de uma ave do género Alectoris (Alectois barbara) endémica do Norte de África. Tem um tamanho médio entre 32 a 34 centímetros, uma envergadura de 46 a 49 centímetros e um peso entre 400 e 750 gramas. Em média será ligeiramente maior do que a perdiz-vermelha. Podemos dizer que tem uma plumagem muito idêntica à nossa perdiz, mas com um padrão diferente na cabeça e pescoço. Tem um comportamento ainda mais gregário que as nossas “vermelhudas”, sendo frequente formarem bandos com mais de 50 indivíduos, que podem chegar a 100, que se tornam menos numerosos no início da primavera, quando se dá a formação de casais. Para alimentação procura essencialmente gramíneas, embora os insetos também façam parte da sua dieta. Habita essencialmente em zonas abertas, secas e com boa exposição solar, que podem ir de áreas a maior altitude, em montanha, mas também prados e margens de zonas florestais. Atualmente tem um estatuto de conservação “Pouco preocupante”.

Programa de caça
Mais informações pelo telefone 966 225 665 ou pelo e-mail [email protected]
Passamos os cinco dias em Marrocos – três de caça – na companhia de Gonçalo Mano, responsável pela Vidigal Hunting que proporciona este programa de caça de salto, além dos já habituais programas de caça às rolas e também de javalis!
O conhecimento dos destinos é sempre um ponto fulcral para qualquer organização de caça e aqui Gonçalo tem um “trunfo”, a sua esposa Sanae Amari, natural de Marrocos, que com o seu vasto conhecimento local coloca tudo a funcionar a perfeição.
Há diferentes tipos de alojamento disponíveis, desde o hotel de luxo a uma moradia junto ao oceano, como foi o nosso caso, com espaço para os cães e onde podemos viver uma verdadeira experiência marroquina, com refeições tradicionais.
Também é possível viajar com os cães de caça (o processo de entrada é simples), seja por avião ou em viatura, pois Marrocos não está assim tão longe. A organização fornece as armas e munições, evitando as sempre morosas démarches alfandegárias.
