Iniciámos o ano com a esperança de que o próximo ano nos traga maiores alegrias no que diz respeito à caça menor. A verdade é que os gestores das zonas de caça que têm a caça menor como principal objetivo, têm poucas possibilidades de efetuar medidas que permitam melhorar em grande escala a qualidade de habitat, principalmente por serem ações bastante dispendiosas e de difícil coordenação com os restantes usos da terra.
Acada ano o clima e a utilização do solo posicionam- se como fatores limitantes do habitat que encontrarão as espécies de caça menor sedentária. Infelizmente, sobre o clima não podemos atuar, melhor dizendo, é um fator que influenciamos ao nível global e que poderá ter originado as tão faladas alterações climáticas, e que tem uma forte influência sobre os ecossistemas, a biodiversidade e as comunidades humanas. Há vários anos que investigadores com conhecimentos técnico-científicos e socioeconómicos estudam as mudanças climáticas, as suas causas, possíveis repercussões e estratégias de resposta. Os impactos de um aumento da temperatura média ambiente de 1,5 graus Celcius sobre os regimes de precipitações anuais e os fenómenos climáticos adversos, são algo a que nos teremos de habituar. E como vimos no ano passado, o clima condicionou em grande medida a reprodução das espécies de caça menor em muitas áreas da Península Ibérica.
AGRICULTURA E GADO COMO VARIÁVEIS
Junto ao clima, o outro fator que influencia o desenvolvimento das populações de caça menor é o uso do solo. Trata-se também de um fator dinâmico e está condicionado por mudanças constantes. A longo prazo, o abandono das terras de cultivo, as reflorestações e o uso agropecuário condicionam o habitat onde se encontram as espécies e a disponibilidade de recursos e refúgio. Dependendo da área de onde nos encontramos, terá maior ou menor efeito qualquer destes fatores. A agricultura e a pecuária tornam-se as principais variáveis modeladoras do habitat. As espécies de caça menor, durante décadas, adaptaram-se aos ciclos dos cultivos e compatibilizaram a sua reprodução com os aproveitamentos pecuários tradicionais, que controlavam o desenvolvimento do estrato arbustivo. O gradual desaparecimento da pecuária tradicional, particularmente dos ovinos em muitas zonas da Península Ibérica, resultou numa alteração considerável das áreas arbustivas que, ao deixarem de ser pastoreadas, aumentaram a sua cobertura e desenvolvimento, convertendo-se em cenários de menor qualidade para espécies como a perdiz-vermelha. Os terrenos agrícolas estão submetidos a uma dinâmica anual cada vez mais condicionada pela Política Agrícola Comum (PAC). Desta forma, a rotação de cultivos, juntamente com os rendimentos, podem supor uma ferramenta para avaliar, a um nível macro, a qualidade do meio nessa temporada. A nova PAC, de aplicação entre 2023 e 2027, apoia e reforça a proteção do meio ambiente (incluída nas políticas de biodiversidade).

REFORÇO DA CONDICIONALIDADE E REGIMES ECOLÓGICOS
Dentro do Plano Estratégico da nova PAC, o reforço da condicionalidade e os regimes ecológicos são dois dos conceitos que maiores repercussões terão para que a nova agricultura seja compatível com a conservação da fauna. O reforço da condicionalidade traz um nível mínimo de compromisso meio-ambiental de caráter obrigatório. Inclui uma série de normas e boas práticas agrárias e de meio-ambiente que qualquer beneficiário de ajudas diretas da PAC terá de cumprir. A condicionalidade conta com onze “requisitos legais de gestão” e dez “boas condições agrícolas e ambientais”. Por outro lado, os regimes ecológicos renumeram as explorações que levem a cabo práticas agrícolas ou pecuárias benéficas para o clima e o meio-ambiente mediante compromissos anuais voluntários. São práticas concretas que cobrem todos os usos possíveis do solo e entre as quais se destacam medidas que têm o objetivo de favorecer a biodiversidade associada a espaços agrícolas, como o fomento de “ilhas” de biodiversidade e a rotação de cultivos introduzindo espécies que possam melhorar o estabelecimento de espaços de biodiversidade.
REGIMES ECOLÓGICOS
Os regimes ecológicos são um dos novos elementos da Política Agrícola Comum (PAC) 2023-2027. Visam apoiar os agricultores no que respeita à adoção de práticas que minimizem o impacto negativo da agricultura no ambiente e no clima, incentivando a evolução para modelos agrícolas mais sustentáveis.
