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O ciclo da codorniz e as rotas migratórias

by Jesus Llorente

A codorniz está na mira das organizações urbanas anti-caça. É nos grandes centros urbanos que se tomam as decisões sobre algo que a maioria desconhece; a caça. E são organizações que apenas recentemente se ocupam de espécies como a codorniz que estão na base da tomada de decisões por parte das entidades que tutelam a atividade cinegética. Contudo, há estudos realizados por investigadores que há décadas se dedicam a espécies cinegéticas, como o que vamos utilizar como análise para este artigo dedicado à codorniz.

Em 2022, o investigador Jesús Nadal (Instituto de Investigação em Recursos Cinegéticos, Universidade de Leida, Espanha) e colaboradores publicaram um estudo sobre o impacto dos obstáculos artificiais na migração da codorniz (Coturnix coturnix)

CICLO ANUAL DA CODORNIZ

O ciclo anual da codorniz inclui quatro etapas biológicas: -invernagem; migração primaveril (chegada); estadia reprodutiva; e migração outonal (saída). Na Península Ibérica, as chegadas têm lugar entre fevereiro e abril, as estadias reprodutivas duram de maio a julho e as saídas dão-se entre agosto e outubro (Nadal et al., 2019). As codornizes vinculam a qualidade do habitat com a demografia da população através de padrões de movimento (Taylo et al., 2016), de forma que chegam conforme os campos se tornam verdes e os abandonam depois da reprodução, quando se ceifam os cereais. Durante o verão europeu, as codornizes alternam a atividade reprodutora com movimentos em busca de habitats de boa qualidade e de congéneres. A criação sequencial das codornizes tem início em África e no sul da Península Ibérica, seguida de uma segunda e terceira tentativas de criação na Península Ibérica e Europa Central. Em meados de agosto começa a migração outonal das aves para regressar às suas zonas de invernagem africanas.

CLASSIFICAÇÃO EM CATEGORIAS

No seu estudo, Nadal e colaboradores estudaram a informação de cerca de 2.600 recuperações de anilhas, classificando as codornizes em seis categorias:

– Escala, menos de cinco dias entre anilhagem e recuperação;

– Sedentária, anilhagem e recupe- ração no mesmo local;

– Invernagem, recuperação entre setembro e fevereiro:

– Viagem direta, menos de 180 dias entre anilhagem e recuperação, com uma distância inferior a 85 km;

– Viagem de regresso, mais de 180 dias entre anilhagem e recuperação;

– Reprodução, menos de 180 dias entre anilhagem e decuperação, com uma distância superior a 85 km.

A reprodução dividiu-se em três categorias:

– Reprodução 1, entre março e maio;

– Reprodução 2, entre junho e julho;

– Recuperação 3, entre agosto e setembro.

As três categorias de viagem (escala, direto e regresso) representaram 32,4% das observações, enquanto as três categorias de reprodução (2 e 3) representaram 64,6%, sendo a reprodução 2 a mais frequente.

ROTAS MIGRATÓRIAS NA EUROPA OCIDENTAL

Neste estudo, os investigadores identificaram as rotas migratórias da codorniz na Europa Ocidental com o fim de compreender como as paisagens antropogénicas (cidades, edifícios, redes elétricas e de comunicações) afetam a dinâmica populacional das codornizes. As aves utilizam mecanismos biológicos inatos de cronometragem para prever as próximas mudanças nos ciclos ambientais. Tanto a antecipação preditiva como a flexibilidade são importantes para determinar os componentes de tempo, direção e distância da migração. As rotas de migração noturna são variáveis e estão afetadas pela hiperfagia, a acumulação de energia (gorduras) e a informação das estrelas e do campo geomagnético. Neste sentido, os modelos de simulação sugerem que as aves migram em resposta a variações estacionais do clima (Somveille et al., 2019). O movimento estacional de animais também se relacionou com a produtividade ecológica (fenologia da vegetação), e as espécies de aves, como já comentamos, seguem a fenologia da verdura da vegetação durante a migração primaveril. Isto suporta as descobertas dos investigadores que detetaram que durante a fase de reprodução 1 o movimento médio é dirigido ao norte, enquanto partem para os seus locais de inverno antes que a vegetação seque no outono (Bredis et al., 2020). Os resultados deste estudo indicaram que o movimento médio durante as etapas de reprodução 2 e 3 é direcionado ao sul, descobrindo que as trajetórias de viagem direta e de regresso coincidem, o que é chamado de fidelidade aos lugares de reprodução familiares.

MAIS DETALHES

Nos modelos de migração, a distribuição das massas terrestres, cadeias montanhosas e as condições climatéricas podem explicar as rotas migratórias das aves. As barreiras geográficas (costas, cadeias montanhosas…) e a direção do vento são os principais fatores que influenciam no detalhe das rotas migratórias. As descobertas dos investigadores mostram que na Península Ibérica o destino preferido das codornizes é a Meseta Norte. Depois de cruzarem os Pirenéus, as codornizes seguem a rota europeia central e a mediterrânica, evitando os Alpes. Os lugares onde as aves se detêm para descansar e reabastecer e quando o fazem, estão condicionados pelo clima que suportaram durante o voo. Ao ir e regressar da Europa, as codornizes fazem uma paragem na Península Ibérica, o que sugere a importância dos habitats da Meseta Norte e Vale do Ebro para a conservação da população. As aves migradoras dependem de uma rede de habitats ao longo das suas rotas como lugares de escala temporária entre as zonas de reprodução e de invernagem. Não se compreende bem até que ponto a rotura das redes migratórias, devido às mudanças de uso da terra afeta o tamanho das populações das aves migradoras. Apesar disso, a atividade cinegética, que extrai uma parcela muito pequena da população total, é assinalada como único fator limitante.

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