Início » Reativar um cão jovem: Trabalho para os próximos meses

Reativar um cão jovem: Trabalho para os próximos meses

by Miguel F.S.

Sim, há décadas era muito mais simples; acabava a temporada e tínhamos muitas e várias opções para continuar a manter os nossos cães de caça ativos. Sair para eles correrem, ir ao campo apanhar espargos, etc. Mantendo o cuidado que requeria a época de criação no campo, mas pisando o campo. Agora é diferente, e as limitações e propensões para deixar “descansar” os nossos cães, fazem com que se desconectem, que se desvinculem uns bons meses da atividade venatória. Mas vamos começar a reativá-los!

Nada pior para os cães de caça do que pararem permanente durante os meses do defeso. Sem pretender ofender ninguém, esquecemo-nos deles com grande facilidade depois do fecho da época venatória. Pensamos que “agora precisam de descansar uns meses para recuperar da época”. Na realidade, estamos a justificar a nós próprios porque é que os vamos deixar no canil, sem os treinarmos, para sermos nós a descansar.

Mas está na altura de fazerem alguma coisa, e é agora, porque daqui a um mês já pode ser tarde. Ainda assim temos sempre opções para reativarmos o nosso cão de caça para a próxima época. Que esta seca não vos desanime, assim como a dificuldade de andar nos terrenos, etc., porque quanto melhor estiver o vosso cão no início da época, melhor rendimento terá para conseguir encontrar as poucas peças de caça que ainda vão havendo. Os cães jovens (e os veteranos) requerem muito treino, muita atividade física progressiva e, sobretudo, bastante tempo com os seus donos. Centremo-nos nos mais jovens, porque muitos ainda estão a amadurecer e uma estagnação na atividade que os reaproxima à caça será aparentemente compensada pelo seu brio e força na próxima época, mas virá também com défices grandes e poderão não explorar plenamente as suas potencialidades, que, em muitos casos, ainda não se manifestaram.

NÃO É POSSÍVEL OBTER RENDIMENTO SEM FUNDO

Quando um cão permanece fechado, sem atividade, durante vários meses, perde diretamente o seu potencial físico, implicado na busca pela caça. Manterá as formas, se for bem alimentado, mas como não se exercita, irá perdendo a força adquirida durante os dias de caça da passada temporada cinegética, e isso é uma grande desvantagem, porque quando sair para o campo ficará exausto em poucos minutos. Isto é o mais claro que acontece quando mantemos os nossos cães sem atividade, mas há mais, muito mais, algo que até é mais importante e que tem uma maior conotação negativa para que o nosso cão possa ter uma boa atividade venatória. Ao ficar parado durante vários meses, os cães perdem o equilíbrio que permite compensar o trabalho físico com o trabalho da deteção de emanações, processos que se complementam e que dependem um do outro. Para percebermos melhor, um cão sem atividade física adequada durante meses, irá sair para o campo querendo “comê-lo”, mas sem equilíbrio, sem medir, sem dosear. Atropelará a caça se a detetar, inclusive tentará apanhá-la, sem respeitar a paragem como fazia na época passada. Outro sinal claro que conhecemos bem é a “surdez”. Um cão que não exercita, que não tem um contacto adequado com o caçador, stressado e chateado por estar no canil, sem poder brincar, saltar ou ir ao campo, sairá como um louco quando o soltamos. Irá correr por onde quiser, quer encontrar caça rapidamente e não irá sequer ligar às nossas indicações; é a “surdez” que precede a ânsia de fazer exercício e pisar terrenos, e vai ser difícil que se volte a centrar em fazer uma busca adequada, simplesmente porque vai atuar de forma irreflexiva, algo que nos desespera.

Interpretamo-lo como desobediência, quando na realidade é uma pura resposta fisiológica ao confinamento prolongado durante os meses do defeso. Na reativação física do vosso cão, devem ir com vontade, e treinar de forma progressiva. Esqueçam essa tentação de quererem pô-lo pronto em dois dias, com um alto ritmo e sem umas semanas de exercício prévio. Não há nada pior do que ver alguém numa estrada, de moto ou mesmo no carro, e o cão a correr desesperadamente atrás… Dia a dia, o cão vai começar a entrar nos eixos e a começar a aguentar o suficiente, em apenas duas ou três semanas. Lembrem-se que não só é importante construir músculo, mas também que o seu coração trabalhe gradualmente para depois conseguir suportar e render diante esforços intensos e prolongados. E também é importante que as suas almofadas se fortaleçam porque, caso contrário, podem começar a ganhar feridas complicadas de recuperar e dolorosas, e deixar o cão imobilizado durante algum tempo. Não queiram dar “passos maiores do que a perna” quando estão a treinar um ser vivo, que sente, e que precisa de tempo para alcançar o seu potencial.

SAIR PARA DESCOBRIR

Quando levamos o cão ao campo, para que corra e se mova num terreno adequado para isso, a sua intenção é sair para descobrir. Os cães jovens saem simplesmente por isso, para descobrir, sendo que a atração principal são as emanações que associam a alguma possível presa. Pode ser um coelho, um pássaro, um lagarto ou algo que descobrem e querem investigar, e por isso às vezes seguem rastos e emanações, sem saber bem o que está lá. Se o nosso cão não tiver tempo suficiente para “despertar”, para refrescar a sua capacidade de deteção olfativa, sairá para o campo com muito poucas opções de localizar peças de caça na temporada que aí vem (quem pensa que um cão que corre e salta uns dias antes da abertura já está em forma, está muito enganado).

Reativar o vosso cão – e ainda para mais se é um cão jovem – nestes meses prévios significa pôr empenho no físico, como já vimos; na capacidade olfativa, como estamos a falar; e no comportamento, como iremos tratar de seguida. Agora vai brincar, para tentar encontrar um trapo com pele de coelho ou umas asas de perdiz. E acostumamo-lo a brincar, lançando-lhe uma bola de ténis, ou deixamos algo nosso conscientemente num sítio específico e entramos com o cão, com o vento favorável, para que ele detete o odor, etc. Há muitas formas de começar a valorizar a sua capacidade olfativa, primeiramente a partir da brincadeira diária. Depois, com uma peça de caça, para que utilize o nariz, que saia para brincar quando quer descobrir. Tenham atenção, pois isto é vital para os cães jovens; se não o fizermos assim, muitos vão viciar-se em seguir pela vista (pássaros, por exemplo) e depois, na caça, isto pode ter consequências.

Há que ir expondo, gradualmente, o cão a diferentes estímulos olfativos, para que desperte o nariz, para que reative os seus recursos. Podemos utilizar o vento, que nos servirá como um excelente aliado, já que no campo o cão não encontrará sempre as melhores opções para detetar a caça, ou seja, ter o vento de cara. Mesmo que seja no parque, numa parcela de terreno onde possamos ir, num caminho mais rural, é igual. Brincamos com ele a lançar a bola ou o trapo, de forma que entre com o vento de cara umas vezes e outras não. As primeiras vezes entrando para lugares fáceis, com pouca vegetação e, gradualmente, com uma maior complexidade, até que comece a centrar-se rapidamente na localização em zonas de vegetação mais fechada e alta. A razão, para além de que tenha de se esforçar, é que, quanto mais vegetação, menos opções há de que o odor seja transportado com facilidade pelo vento; e é aí onde se deverá esmerar, tal como quando entram para ir buscar uma peça numa vala, por exemplo.

TREINAR COM PERDIZES E SEM ESPINGARDA

Uma vez que o cão já se exercitou durante umas semanas, chegou o momento de reativá-lo no seu comportamento, e a opção que temos ao nosso alcance é colocá-lo numa pseudo situação de caça, utilizando algumas perdizes de cativeiro. Primeiro, para que trabalhe os rastos e as emanações, sem que seja uma ação de caça com espingarda. Isto é fundamental. Não queremos cobrir etapas a alta velocidade e passar de tirá-lo para correr quatro dias no parque, a tirá-lo para ver uma dúzia e meia de perdizes. Não, cada coisa a seu tempo, vamos passo a passo, que é a forma que temos para conseguir o melhor resultado. Uma vez em sintonia com o físico e com a sua capacidade de deteção olfativa, tudo foi complementado, durante estas semanas de treino, com o fomento do apego, para que o nosso cão saia sempre em sintonia connosco. Agora toca a colocar uma perdiz, mas só uma. E era excelente que o cão conseguisse fazer vários rastos à perdiz (convém colocarmos a perdiz numa caixa), numa zona com uma vegetação mais escassa, mas onde o cão não consiga ver a caixa. Soltamos o nosso cão, com o vento favorável, a uma certa distância e avançaremos atentos à sua reação. Há que dar-lhe algumas facilidades nos primeiros exercícios, um ou dois em cada sessão durante vários dias.

Depois, saímos para o campo sem colocarmos perdiz nenhuma. Temos de ir observando as suas reações e como se adapta diante da ausência de emanações; e será aí que iremos comprovar se é perseverante, se cresce e não deixa de procurar, ou se fica aborrecido e vem ter connosco, sintoma de que lhe falta ativação e “sede” de captura, trabalhando em consequência com mais exercícios e complicando cada vez mais os testes. Com alguns cães é importante que vejam uma perdiz a voar, num terreno onde ela consiga fugir com toda a segurança (cuidado para que ela não voe e ele a consiga apanhar). Num momento mais prudente, é a altura de ir para o campo com a espingarda, mas primeiro precisamos de fazer bem todos estes exercícios. Podemos utilizar a perdiz de várias formas durante o treino, partindo sempre do princípio de que o nosso cão não deve ver o que fazemos e como fazemos. Por isso, devemos deixar o cão no carro enquanto colocamos a perdiz, e distanciarmo-nos bastante para não deixar rasto, regressando para o tirar assim que acabarmos. Assim que terminarmos o treino, devemos retirar a caixa da perdiz (se a utilizarmos) e pôr o cão no carro novamente. Quando percebermos que, ao chegar ao terreno, o cão já quer sair para procurar o rasto, já não precisamos de usar mais a jaula ou a caixa da perdiz, porque ele já quer sair para descobrir, que é aquilo que nós queremos. Agiremos em consequência, levando-o a zonas de diferentes níveis de dificuldade e trabalhando com o vento, entrando a partir de várias direções. Rapidamente chegará o momento em que podemos ir com a espingarda, mas não se esqueçam de fazer bem esta fase do treino.

You may also like

Leave a Comment