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É lógico caçar com uma espingarda de canos justapostos em pleno século XXI?

by Redação

Ao ler esta pergunta, muitos responderão imediatamente que “não”. É lógico pensar que em pleno século XXI caçar com uma espingarda pouco evoluída tecnicamente faz pouco sentido, e as armas de cano liso de canos justapostos – mesmo as fabricadas nos nossos dias – são as que evoluíram menos em determinados aspetos.

As modernas espingardas de caça semiautomáticas e de canos sobrepostos têm vários argumentos técnicos que são valorizados pelos caçadores: os sistemas de amortecimento do recuo de tiro, mecanismos de municiamento mais rápido, detalhes ergonómicos que permitem uma utilização mais confortável e, por que não dizer, maior eficácia de tiro. Estes são apenas alguns dos argumentos técnicos mais comuns das modernas espingardas semiautomáticas e de canos sobrepostos, pois podemos até encontrar modelos que fazem uso de materiais compósitos, ligas leves e até dispositivos eletrónicos (como o sistema Gun Pod da Beretta). No entanto, a caça é uma atividade que se baseia em sensações, em vivências e gostos muito pessoais, por isso há um conjunto de caçadores que continua – e continuará – a utilizar nas suas jornadas de caça uma espingarda de canos justapostos, que pode ser moderna ou até mesmo a velha paralela deixada de herança. Inclusive assistimos neste momento a uma crescente procura por este tipo de armas antigas e ao recuperar – por parte de alguns fabricantes – de alguns modelos icónicos que fizeram história nos anos 50 e 60 do século passado.

Espingarda imortal

A “paralela” é uma espingarda imortal para muitos caçadores que recordam com saudosismo as grandes caçadas em linha nas planícies do Alentejo. As mais populares Sarasquetas, as sólidas e robustas Merkel, as aristocráticas e exclusivas Purdey ou Holland, continuam a preencher os sonhos de muitos caçadores. Atualmente, comprar uma boa espingarda de canos laterais pode ser motivo de divórcio! Os preços de uma boa espingarda de canos justapostos e de marca prestigia da podem ser consideravelmente altos. Pelo mesmo valor podemos comprar um par (ou um trio) de semiautomáticas de qualidade! Existe uma grande procura de espingardas de canos paralelos fabricadas na segunda metade do século passado por marcas de renome: AYA, Arrieta, Victor Sarasqueta, Grulla, Arizabalaga, são alguns exemplos das espingardas com este tipo de configuração que encontramos no mercado de ocasião a bom preço. Por vezes chega-nos a oportunidade de adquirir uma velha paralela deixada de herança a alguém conhecido que já não caça, na maioria dos casos uma arma “carregada” de valor estimativo, mas que na prática servirá para muito pouco. E muito menos para caçar!

Uma espingarda sem evolução?

Vamos passar para o mercado de espingardas novas. As semiautomáticas registaram nos últimos anos evoluções significativas; no perfil das almas dos canos, chokes intermutáveis, mecanismos de repetição e municiamento, para falar apenas de algumas das características que receberam a atenção dos engenheiros dos principais fabricantes. Outro aspeto importante é que as modernas espingardas semiautomáticas estão disponíveis com preços muito interessantes. A relação preço/qualidade (a que podemos acrescentar as prestações balísticas) deste tipo de espingardas é verdadeiramente imbatível. As espingardas de canos sobre postos também registaram avanços significativos; são utilizadas novas ligas no fabrico das básculas, que são agora mais baixas e estreitas, os canos também evoluíram e hoje encontramos espingardas desta configuração de preço acessível com excelentes prestações balísticas. Então e as paralelas? Quem julga que se mantêm iguais ao que eram no século XX está enganado! As paralelas também receberam novas ligas para o fabrico das suas básculas, que suportam pressões superiores e, claro, também estão sujeitas às mais rigorosas e atuais normas de qualidade. Seguindo a evolução das espin gardas de canos paralelos, também nesta categoria encontramos chokes amovíveis ou seletores de tiro. E inclusive alguns modelos de design inovador, conjugando num belo efeito (de acordo com os gostos de cada um) as linhas clássicas com conceitos ergonómicos modernos.

Na competição

Temos referências claras da uti lização de espingardas de canos justapostos nas provas de tiro ao voo, embora atualmente não se vejam nas competições de Fosso nem das disciplinas de Sporting. Na verdade, a espingarda de canos paralelos é ultrapassada pela de canos sobrepostos em vários fatores. Um deles é o conforto de tiro, muito importante em competições com mais de 100 pratos.

A melhor para caçar?

Esta é a pergunta que se repete vezes sem fim nas tertúlias de caça; qual a melhor espingarda para caçar coelhos, lebres, perdizes, patos, pombos, galinholas, tordos, etc.? Se analisarmos a atual situação da caça, segura mente a resposta mais ouvida seria “a de canos sobrepostos”, pois trata-se de uma espingarda muito polivalente, fiável e com boa relação preço/qualidade, que permite uma configuração com dois chokes distintos e além do mais tem algumas vantagens em situações concretas, como por exemplo no tiro de stand. Hoje caçamos de uma forma diferente, aproveitando e desfrutando mais de cada lance, pelo que o terceiro tiro das semiautomáticas está cada vez menos justificada. Respondendo à questão inicial, não hesitaríamos em colocar a nossa preferência por esta ordem; primeiro as espingardas de canos sobrepostos, depois as de canos paralelos e por último, as semiautomáticas.

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