Vamos falar neste artigo do mecanismo de recuo de cano que tem como exemplo mais icónico a mítica Browning Auto 5, uma das maiores criações do génio armeiro que foi John M. Browning.
Como deverá ser fácil de entender, os mecanismos de repetição automática das armas de fogo não começaram nos modelos desportivos de caça ou tiro, mas sim nas armas militares, concretamente com uma arma nova que – à época – não existia e que se denominou de “machine gun”, na nossa língua metralhadora”, sinónimo de “arma de fogo automática”. Embora a primeira metralhadora – designada por “machine gun” – tenha sido a famosa Gatling, usada na Guerra Civil Norte-Americana, o aparecimento das modernas metralhadoras (com ciclos automáticos que dispensavam a força humana) deve-se principalmente a dois homens: Hiran Maxim, que em 1884 inventou a metralhadora que foi usada na Guerra dos Bóer (1880/81) em África e na Guerra Hispano-Americana (1898), com mecanismo de recuo de cano; e a John M. Browning, pai da M1895 Colt-Browning de funcionamento por tomada de gases e ciclo de disparo de 450 munições por minuto.
DO AUTOMATISMO POR GASES AO RECUO DE CANO
John M. Browning em 1889 tinha vendido à Winchester várias das suas invenções. Foi numa com petição de tiro com carabina no Utah, estado de onde era natural, que J. M. Browning ao ver o pó levantado em cada disparo teve a ideia de aproveitar a energia que resultava dos gases provocados pelos disparos. Essa energia poderia gerar a força necessária para fazer funcionar um automatismo de repetição do ciclo de tiro. O resultado dessa invenção foi precisamente a M1895 Colt-Browning, metralhadora que possuía a tomada de gases através de um pequeno orifício no cano e que faziam movimentar um conjunto de alavancas e bielas. Através da casa Colt, Browning entrou em contacto com a empresa europeia F.N. (Fabrique Nationale d’Armes de Guerre), um consórcio com participação do governo belga que se havia constituído para dotar o exército do país de espingardas de guerra Mauser. O contrato de direito de produção de armas sob licença alemã estava a expirar e a F.N. precisava desesperadamente de iniciar a produção de outras armas, sob risco de fechar portas. A primeira realização de John M. Browning para a empresa belga foi a pequena pistola F.N. 1900 (calibre 7,65 Browning), da qual se venderam algumas centenas de milhares de unidades. Vendo o interesse da F.N., Browning submeteu à consideração da empresa o fabrico de uma espingarda semiautomática e que foi imediatamente aceite, começando assim, em 1903, a produção da Auto 5. A espingarda Auto 5 foi um autêntico êxito de vendas e a Remington comprou os seus direitos para a produzir nos no Velho Continente os caçadores continuavam muito apegados às duas “paralelas”. O que é mais curioso é que Browning utilizou na Auto 5 não seu sistema de automatismo por tomada de gases, mas sim uma adaptação do mecanismo de recuo de cano da metralhadora Maxim. Outro dado curioso é que antes de apresentar o projeto da Auto 5 à F.N., Browning entregou alguns protótipos à casa Winchester, que nunca demonstrou muito interesse na espingarda semiautomática, preferindo continuar a desenvolver as suas carabinas de alavanca. Browning chegou inclusivamente a propor uma parceria de produção à Winchester, ten do a empresa continuado a não demonstrar interesse. Frustrado com o desinteresse da Winchester, Browning apresentou então o protótipo à F.N.

MECANISMO
O mecanismo de recuo de cano da Auto 5 (designado “long-recoil”) faz uso da energia desenvolvida pelo disparo da munição para fazer recuar o cano e culatra em conjunto, num movimento mais longo do que o comprimento do cartucho (por isso “longo recuo”) e rearmar o cano. No movimento do cano para a sua posição inicial a culatra permanece à retaguarda, o suficiente para que o invólucro vazio seja expulso pela janela de expulsão (no lado direito da car caça). Só depois a culatra inicia o seu movimento para a frente e se dá a alimentação da câmara com uma munição do depósito tubular. A Auto 5 possui um sistema de anéis e elementos de fricção que retardam o recuo do cano. Esses anéis podem ser ajustados de modo a permitir o uso de diferentes cargas sempre com fiabilidade no mecanismo de expulsão e alimentação. Um sistema desenvolvido por um génio!
OUTRAS ESPINGARDAS COM RECUO DE CANO
A lista é curta! Além da Reming ton Model 11 (e Model 11-48, a nova geração produzida após a Segunda Guerra Mundial), a norte-americana Savage também produziu uma semiautomática de recuo de cano sob licença Browning. Na Europa foi a Franchi 48 AL que adotou o mecanismo de recuo de cano desenvolvido por John M. Browning para a Auto 5. A casa italiana criou para a 48 AL uma caixa de culatra em liga leve de alumínio (por isso AL) e teve em catálogo alguns modelos luxuosos, com coronha Príncipe de Gales em raiz de nogueira.
