Chega Setembro, as madrugadas são mais frescas, as tardes são mais douradas e os “Senhores do Monte” dão início a mais um ciclo de perpetuação da espécie… começa a Brama, um dos momentos mais grandiosos das nossas terras bravias! Para mim é tempo de regressar aos nossos montes e dar cumprimento a um “chamamento” que também vem desde a origem da nossa espécie, que nos permitiu sobreviver e prosperar, a Caça! Mas afinal o que é a Brama e a Ronca?
TEXTO: JOÃO CORCEIRO
FOTOS: AUTOR E @LICINIAPHOTOGRAPHY
Areprodução dos cervídeos, é dos ciclos mais interessantes da nature za. Para estes animais, a reprodução é a força dominante das suas vidas, que os ocupa o ano todo, mas que tem especial impacto durante a época do cio. Todos os cervídeos se reproduzem num padrão sazonal, mas as diferentes espécies reagem de forma distinta às mudanças das estações do ano. A fisiologia da reprodução é crucial para entendermos os seus comportamentos e perceber quando terá início a Brama dos Veados, a Ronca dos Gamos ou o Cio dos Corços. A perda do veludo das hastes é apenas um dos indícios de que faltam poucos meses, para o início dessa época. O veludo é o tecido que providência os nutrientes para o desenvolvimento das cornamentas, que por ser irrigado provoca sensibilidade, o que leva os machos a serem cautelosos durante esse período. Só com a perda do veludo é que deixa de existir essa sensibilidade e os machos es tão prontos para as batalhas que se avizinham. As hastes serão a arma de escolha destes gladiadores, os mais fortes conquistarão os direitos de sangue, de transmitir os seus genes a uma nova geração, garantindo a continuação da espécie, de acordo com este processo de seleção natural.
COMPORTAMENTOS
Com os Veados e os Gamos, tudo começa quando as temperaturas estivais descem e os dias ficam mais pequenos, o que estimula a entrada das fêmeas no cio. Estas mudanças também provocam um aumento da testosterona nos machos. No caso dos Veados, machos e fêmeas habitualmente não andam juntos exceto na Brama, que no nosso país acontece em Setembro, os grandes “Senhores do Monte” são animais solitários, ou vivem em grupos de machos durante o resto do ano. A Brama, esse extraordinário berro dos ma chos, mais do que nada, serve para atrair as fêmeas dispostas a procriarem e que passam a fa zer parte do harém de um macho em particular. A natureza é qua se perfeita, as crias nascerão na Primavera, na época da fartura e do tempo ameno. Os Gamos têm um ciclo e um comportamento semelhante em muitos aspetos, mas que normal mente acontece algumas semanas mais tarde, podendo prolongar-se por Outubro. Estes cervídeos apresentam outras alterações fisiológicas, que são uma indicação de que a Ronca está iminente, entre elas o aumento acentua do da maçã de Adão dos machos. Ao contrário dos Veados, os Gamos na maior parte das vezes não mantêm um harém permanente, conquistam um território que seguram e dependem da sua habilidade em roncar, para atraí rem as fêmeas para esses terrenos! Toda a “ação” tem lugar durante a Brama e a Ronca, por ser nesta altura que se dão os combates entre os grandes titãs, que usam as suas hastes para esgrimirem uns com os outros, por vezes de forma extremamente violenta. O final do Verão e o início do Outono, é dos períodos mais espetaculares dos nossos bosques, aquele em que os grandes machos, cegos pelos amores carnais, anunciam as suas intenções aos quatro ventos e se deixam ver, em toda a sua glória! Todos os anos me inscrevo nas nossas Zonas de Caça Nacionais, mas cada vez é mais difícil ter a sorte de caçar na Lombada ou na Contenda. Não porque haja menos vagas, ou tenham sido criadas mais restrições, desta vez é por uma boa razão, há mais inscrições de ano para ano, o que diminui a probabilidade de ser um dos afortunados caçadores a ter acesso a essas áreas, para mim das melhores do nosso país.

A SERRA DO MENDRO
Mas se não é possível caçar na Serra de Montesinho ou na Serra Morena, também há outras opções, a Serra do Mendro é uma delas e há dezasseis anos que caço na Herdade do Sobroso. Esta propriedade está inserida numa paisagem única, a norte a serra, a sul as imensas planícies alentejanas, com o Guadiana a serpenteá-las e a nascente Moura, com o gigantesco lago do Alqueva. Os mil e seiscentos hectares da herdade, conciliam o ecoturismo de grande nível e a produção de excelentes vinhos, com a silvicultura e a caça, numa parte muito sossegada da Serra do Mendro, onde podemos encontrar quatro das nossas espécies de caça maior, entre elas bons Veados e grandes Gamos. Curiosamente as minhas an danças por aquelas serranias e planícies, começaram atrás das Codornizes, das Perdizes e das Lebres. Seguiram-se algumas montarias e só depois comecei a caçar de aproximação. Ao fim de todos estes anos conheço a propriedade como a palma das minhas mãos, por a ter calcorreado muitas vezes. Para além disso tenho a sorte do proprietário me deixar caçar sozinho, a meu belo prazer, numa prova de confiança e de grande amizade que muito prezo, o que para mim torna ainda mais especial caçar no Sobroso!
COMEÇAR PELO “PÉ DE GALO”
Este ano a minha caçada teve início na primeira madrugada de Setembro, os Veados tinham começado a bramar há uma se mana e, segundo os guardas da propriedade, a Berreia já estava em pleno. Resolvi começar por uma man cha conhecida por “Pé de Galo”, nome que a caracteriza muito bem, por ser uma zona de serra com essa configuração, recor tada por cabeços altos e barran cos profundos, com um grande pinhal, bosque mediterrânico e algumas encostas cobertas de es tevas e medronheiros. O maior desses vales atravessa parte da mancha, de nascente a poente, é bastante sinuoso e mui to cavado, com pendentes de de clives acentuados. Um lugar fabuloso nesta altura do ano, onde a Brama ganha uma dimensão ainda mais extraordinária, pelas características acústicas do lugar, um amplificador natural, que quase nos transporta para tempos pré-históricos, em que tudo era mais selvagem e o homem vivia apenas daquilo que colhia e caçava! Cheguei ainda de noite, a uma das extremas desse vale. Saí do carro, carreguei a velhinha .308, preparei o tripé, os binóculos e escutei… a madrugada estava fresca e uma ligeira brisa soprava de oeste, enfiada com o vale, na minha cara. Nas minhas cos tas os primeiros clarões da aurora tingiam de vermelho algumas nuvens distantes no horizonte. Dois ou três bramidos ecoavam nas vertentes à minha frente, fui esperando por mais luz que me permitisse ver onde estavam os Veados. Aos poucos os contornos tornaram-se mais distintos, entretanto outros dois machos juntaram-se ao coro. Com a ajuda dos binóculos descobri o primeiro, uma segunda cabeça de oito pontas, mais alguns bramidos e lá estavam duas fêmeas acompanhadas do seu Romeu, um machote de onze pontas… O Sol apareceu e já se via tudo, resolvi descer ao fundo do vale e iniciar a minha caminhada. Normalmente não é assim que caço, prefiro manter-me a meia encosta, de onde é mais fácil controlar o que está na outra vertente e à minha frente e também me permite planear as aproximações de cima para baixo, o que é uma grande vantagem. Mas desta vez o “concerto” merecia ser gozado na sua plenitude e era lá no fundo, com mais de uma dezena de Veados a bramar de um lado e do outro, que tudo vibrava à minha volta. Para mim, naquele momento, caçar quase que era secundário…

DEVAGAR E EM SILÊNCIO
Mas lá fui caçando sozinho, de vagar e em silêncio, parando mui tas vezes para tentar descobrir os Veados encobertos pelas estevas, tapados pelas azinheiras ou bem à vista nas cumeadas douradas pela luz da manhã. Ao longo de alguns quilómetros e em mais de duas horas, ali estive a escutar e a descobrir um Veado após outro, sem pressas. Nenhum era a presa que eu procurava, mas toda aquela envolvência é o que de mais puro e sublime podemos encontrar na Brama! Com a manhã já bem entrada regressei ao jipe e fui até à “Tapada Branca”, uma mancha muito dis tinta daquela em que tinha esta do. Esta zona também tem cabeços altos, mas não é tão recortada como o “Pé de Galo”, as encostas são mais uniformes e têm declives menos acentuados. O coberto vegetal também é diferente, caracteriza-se por grandes áreas de pastos intercaladas com estevais, salpicadas aqui e além por uma azinheira ou por um chaparro. Percorri vários caminhos de carro, parando nos pontos mais al tos, para escutar e procurar al gum Veado que ainda bramasse. De repente, ao longe, vi um gran de macho, muito escuro, a correr com três Cervas. Parei o jipe, peguei nos binóculos e deu para ver que era um Veado bem melhor que todos aqueles que tinha encontrado até então. Apesar do arco característico dos bichos desta zona, consegui perceber que era comprido, muito grosso e com umas bonitas coroas com quatro ou cinco pontas. O grupo dobrou a cumeada e perdi-os de vista… Sai do carro e lá fui barreira acima atrás deles. Quando cheguei ao alto, procurei-os nas encostas e vales que se estendiam à minha frente, mas em vão. Fui até uns penhascos onde estavam dois Grifos, que voaram quando me aproximei, e ali estive durante mais de meia hora a perscrutar cada pedaço de esteval, com a esperança que o Veado bramas se e me permitisse descobri-lo, mas não o fez e nunca mais o vi. Regressei ao monte da Herdade e ao fim da tarde voltei à serra com a minha mulher, para fotografar a bicharada. A maior parte do tempo foi passado na “Tapada Branca” e a Licínia teve várias oportunidades de foto grafar Veados, Gamos e até dois Muflões em cima de umas fragas, mas não consegui ver o grande macho da manhã…quase ao escurecer, regressámos pelo “Pé de Galo” e os Veados já bramavam de novo, mas não com a mesma intensidade da alvorada! Após um magnífico jantar de morei a adormecer, não por ter comido de mais, mas por saber que aquele grande Veado andava pela serra. A noite foi agitada, a imagem daquele “Senhor do Monte” a correr encosta acima com o seu harém, fez parte dos meus sonhos…, mas já tinha um plano para o tentar enganar… A “TAPADA BRANCA” Levantei-me de madrugada e fui até ao extremo sul da “Tapada Branca”, onde eu acreditava ser o território daquele Veado. Conhecer bem os sítios em que caçamos ajuda muito. Sabia, doutros anos, de alguns dos terreiros da Brama daquela área onde o vi, tinha de ser por ali que ele andava ao nascer do dia! Deixei o carro muito longe e comecei a minha caminhada, uma aragem fresca soprava de noroeste, o ideal para prosseguir com o meu plano. Passaram-se mui tos minutos e apenas ouvi um bramido muito distante, não era do “meu Veado” de certeza. Continuei o meu passeio e com a primeira luz, ouvi um bramido grave, seguido de outro diferente, mas também muito forte, relativamente perto, no início de um vale que atravessa a mancha de norte a sul, onde eu pressentia que poderia estar o que procurava… Devagar e sem fazer ruído, lá me fui aproximando, sempre ouvindo os dois Veados a “cantar à desgarrada”, ora um ora outro. Quando dobrei a segunda curva do vale, dei de caras com o Veado de frente para mim, de pescoço esticado e cabeça baixa a bramar, acompanhado do seu harém. Era sem dúvida nenhuma o mesmo grupo do dia anterior, estavam a meia encosta, numa área de pasto e bem visíveis. Mais acima, na cumeada, a poucas centenas de metros, estava o rival a desafiá-lo… Mantive-me encoberto a avaliá–los e a apreciar aquele espetáculo durante muitos minutos, com o coração a duzentos. O “meu Veado” era mesmo muito bom, um bicho velho de aspeto pesado, pescoço grosso e muito escuro, com hastes altas, grossas e com umas belas coroas. O adversário lá continuava desafiante e também estava à altura. Apesar de mais jovem era muito corpulento e impunha respeito, as hastes até eram mais compri das, mas tinham menos pontas na coroa. A escolha estava feita, era o Veado velho o mais bonito e aque le que eu devia caçar, o outro certamente que tomaria o lugar dele junto do harém. Estava agachado a pouco mais de cem metros dos Veados, coloquei-me de joelhos, apontei ao ombro, disparei e o macho caiu onde estava. Fui até ele para admirar aquele grande “Senhor do Monte”, tirei algumas fotografias e puxei-o para a sombra de um medronheiro.

UM GAMO SOBERBO
Ainda era muito cedo e resolvi continuar pelo vale, para nor te. Em pouco mais de hora e meia atravessei uma boa parte da mancha, sempre ouvindo e vendo Veados nas encostas ao meu redor. Regressava ao jipe e, quando estava a menos de um quilómetro, descobri um Gamo, na parte mais baixa de uma ver tente, junto a três azinheiras. Era um dos melhores Gamos que alguma vez vi no Sobroso, com umas hastes altas, com pás largas, já bem escuras e lutadeiras muito compridas. Não estava a roncar, provavelmente ainda faltaria um par de semanas para isso, mas a maçã de Adão era bem visível, mesmo a uma grande distância! O bicho continuava a andar em direção a uma ribeira mais abai xo. Fui atrás dele com as caute las necessárias para que não des se por mim. Quando cheguei às azinheiras, onde o tinha visto a primeira vez, parei. O Gamo es tava a beber a menos de duzentos metros, apoiei a .308 num tronco, ajustei a torre balística, apontei bem e a Swift A-frame saiu cer teira… o Gamo caiu, desapare cendo no meio da erva alta e dos juncos… Foi sem dúvida um dos melhores machos que alguma vez cacei e o de maior corpo. A Primavera foi muito generosa em termos de chuva, a fartura de pasto fez com que todos os animais que vi esti vessem em excelente estado e com bons troféus, este Gamo soberbo confirmava isso mesmo.

