Todos sabem a que nos referimos quando dizemos que um cão tem boca dura, mas para o caso de haver alguém mais despistado, vou começar por explicar em que consiste esta conduta indesejada.
Dizemos que um cão tem boca dura quando, no exercício do cobro, aperta a caça ou mastiga-a até ao ponto de a estragar ou destroçar devido ao stress que conduz a uma ansiedade. Podemos dizer que há diferentes níveis de boca dura, que começa num mais leve, que se manifestaria em apertar uma peça ferida até matá-la, até um nível mais grave, que consistiria em destroçar a peça e engoli-la. Uma variante da boca dura é fugir com a peça e enterrá-la. Apesar de muitos não saberem esta última variante, foi precisamente a analisar o porquê de um cão enterrar a peça que descobri a solução para o problema em qualquer uma das suas variantes.
PORQUÊ?
A que se deve este stress e ansiedade que provoca a boca dura? É que para solucionar um problema e evitar que este apareça, não há nada melhor que conhecer a origem, o porquê do problema. Vou ser um pouco generalista, mas é que a realidade é teimosa e qual quer problema de cobro deve-se, em maior ou menor intensidade, à falta de confiança, juntamente com umas caraterísticas inatas do cão em questão. Não é algo inato, não é genético, mas há uma propensão, e é importante ter isto em conta. Falta de confiança em si mesmo, no dono, nos outros cães…? Pode, efetivamente, dever-se a tudo isso, mas a falta de confiança está sem pre no mote principal. Um cão que foge com a peça que recuperou e a enterra, tem uma falta de confiança absoluta no seu dono e, além disso, uma má experiência com outros cães que lhe roubaram uma peça noutra situação, ou quiçá o dono roubou-lhe mesmo a peça quando este passava ao seu lado orgulhoso do seu troféu (sim, seu, porque às vezes esquecemo-nos que uma peça de caça que o cão recupera é sua). Devemos fazê-lo perceber eu essa peça que ele recupera é nossa e, por isso, deverá trazê-la até nós. É disso que se trata o treino.

CONFIANÇA E CHAMADA
Os últimos cães que tive de tratar por problemas de boca dura, foram relativamente simples de recuperar. Bastou treinar com uma boa chamada, à base de prémios com comida (salsichas ou algo que eles gostem). Depois, trabalhar a confiança, deixando que traga primeiro objetos e peças mais tarde sem tirar-lhe nada, sem pedi-lo. Trata-se simplesmente de sentar-se dia após dia e dar-lhe prémios (guloseimas) cada vez que se aproxima de nós sem chamá-lo e outras vezes a chamá-lo (há que ir alternando isto, observar…). Mas sobretudo, quando lhe lançamos algo, premiar a distância verbalmente quando apanha e traz, e nada de lhe pedir. Esperamos e curiosamente acaba por se aproximar com o seu brinquedo ou a peça de caça, momento em que lhe fazemos festas e, muito importante, não lhe tiramos nada, não lhe pedimos nada: acariciamos e oferecemos um prémio (uma guloseima), que ele tirará com gosto e para o qual terá de soltar o seu tesouro precioso. Já sei o que estão a pensar. O que é que isto tem a ver com boca dura? Certamente que já leram que deve ser contido e, se mastigar, castigar, e recompensar quando não o fizer. Eu já escrevi isso, eu já pratiquei esse método e funcionou, mas só com exemplares fortes. Mas agora digo-vos que, com base na minha aprendizagem e experiência, não é necessário nada disso, pois basta que façamos com que o cão te nha plena confiança em nós, em primeiro lugar, e trabalhar uma chamada perfeita, depois. Se de pois de conseguirmos isto, o nosso aluno continua a apertar, então poderemos recorrer ao método da manipulação da mandíbula, apesar de que se tivermos esta base será mais simples que nos perceba e, sobretudo, será uma coisa menos aversiva para o cão.

PRESENÇA DE OUTROS CÃES
É fundamental que qualquer exer cício que façamos seja sempre com o cão sozinho. Só quando conse guirmos que o cão traga a peça sem a mastigar, é que começamos a colocar, de forma progressiva, algum cão que já elegimos pre viamente e com muito cuidado. Este cão terá de ter determinadas caraterísticas, nomeadamente, cobrar muito bem, não ser agressi vo, não ser muito competitivo, ou seja, que não vá lutar pela peça de caça. O cão que usaremos como apoio, num primeiro momento deverá estar do outro lado de uma vala, se tivermos uma vala onde estamos a treinar, senão, atado a algum sítio. Devemos lançar a peça na sua direção sem que, obviamente, chegue à sua posição. Fazemos isto para compravar se efetivamente a boca dura se ativa pelo stress e ansiedade que produz a presença de outro cão. O nosso aluno relaxar-se-á ao perceber que o outro cão não o persegue para roubar a peça de caça. Numa segunda fase, soltamos o cão de apoio, que esteve como espetador e só intervém quando o outro abandonar a peça, mo mento em que dizíamos ao de apoio para cobrar. Desta forma teríamos em cena uma certa competitividade – chamada de ciúmes por alguns – que fará com que a vontade de cobrar do aluno se ative, mas cuidado, também o stress e a ansiedade que provocaram a boca dura. Relaxar-se-á outra vez ao ver que o outro cão não luta pela peça. Desta forma, pouco a pouco, iremos conseguir que a boca dura desapareça, mas que ninguém se esqueça da base, já que é o primordial: confiança, prémios (guloseimas) e não lhe roubar a peça. A boca dura pode reaparecer se um cão competitivo e que lute pelas peças entrar em cena, por isso convém tentar separar os nossos cães desse tipo de cães. Não há outra forma, porque a boca dura é algo que vai estar sempre ali, não se erradica a 100%; melhora-se muito mas… cuidado.

