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Como preparar a abertura às aquáticas?

by Redação

Está a chegar a ansiada abertura da caça menor, durante o mês de agosto, onde muitos de nós rumam a campos de trigo sem fim, a cevadouros nas clareiras dos pinhais e outros tantos a massas de água espalhadas um pouco por todo o país. É para estes últimos que escrevo este artigo, se bem que daqueles que entre nós escolheram os anatídeos para fazer a abertura, poucos serão os que continuarão pela época dentro atrás destas espécies.

Texto e Fotos: José Viera Martins

Nos últimos anos temos verificado um aumento de jornadas aos patos no verão e o decréscimo de rolas bravas não é a única razão, mas indubitavelmente tem o seu peso. Um dos motivos que talvez os mais jovens não se recordem, era a necessidade de uma licença própria para a caça de aquáticas, havia um número muito reduzido de organizações de caça e ainda menos a organizar caçadas aos patos. E ainda porque a caça aos patos apresentava resultados menos certos e com um esforço maior de preparação da zona a caçar. Vamos então preparar a nossa charca!

Tipos de zona a caçar

A caça aos patos pode ser efectuada numa grande diversidade de entornos, que variam também conforme a zona do país onde nos encontra mos, como da época do ano em que estejamos. Haverá quem faça a abertura em arrozais, em grandes charcas, pequenas charcas e zonas alagadas, neste artigo iremos focar-nos nas charcas, independentemente do tamanho. As charcas, no meu entender, serão os sítios onde poderemos obter os melhores resultados com base na nossa capacidade de trabalhar o local e não tanto dos nossos conhecimentos na escolha do local, da procura e entendimento das querenças dos patos na zona onde vamos caçar. Obviamente que ao seleccionarmos uma charca para a abertura teremos sempre de ter em conta as querenças e características da zona onde iremos caçar. Mas atenção, não quero com isto dizer que caçar numa charca seja melhor ou pior que qualquer uma das outras opções, até porque no fim, o que interessa é ver umas entradas de patos e ter um bom convívio durante toda a jornada. É que estes primeiros dias de caça são bem longos, entre o nascer e o pôr-do-sol temos bas tante tempo para caçar.

Preparação

Na preparação de uma charca para caçarmos é conveniente começar a trabalhá-la o quanto antes, quanto mais cedo melhor. A preparação não é só a instalação dos postos onde iremos caçar, mas também servirá para criarmos melhores condições patos e para podermos controlar à distância as suas entradas, movimentos, etc. Uma das tarefas que considero mais importante no início é preparar os caminhos para a charca, para que se torne mais fácil e acessível a qualquer elemento do grupo fazer a sua parte e alimentar a charca; digo “alimentar” porque nunca alimentamos só os patos, há sempre um largo número de animais que irá comer o que lá pusermos, perdizes, javalis, texugos e tantos outros. Uma componente também bastante importante é a de escolher um local afastado da charca, mas com boa visibilidade sobre a mesma. Desta forma conseguimos alimentar os patos nas horas de menor movimento e mais calor. Depois afastamo-nos para o posto de observação e poderemos fazer contagem dos patos que temos a alimentarem-se na charca que estamos a trabalhar. Existe ainda um acompanha mento que gosto de fazer nas char cas e que julgo seja transversal a todos os caçadores de patos; ver as penas, fezes e pegadas nas zonas onde colocamos a comida. Neste ponto convém verificar não só as dos patos, mas também se nas zonas envolventes encontramos pegadas de outros animais que também estarão a reclamar o seu quinhão do milho que deixamos aos patos. Não raras vezes, são óptimos locais para esperas aos javalis, pois conjugam alimento e água, no entanto, acho que para mantermos os patos calmos, será preferível optar pelo arco ou besta e optar por um dos aguardos que preparámos para os patos.

Tipos de alimentação

Os patos-reais em Portugal são tanto migradores como residentes e por isso a sua alimentação variará conforme a zona onde se encontre a nossa zona de caça. Claro que existirão sempre alimentos que agradarão a um número para os mais alargado de zonas do país e teremos ainda patos que nos surpreenderão com aquilo que têm no bucho. Numa caçada em Beja caçámos um pato-real com o bico partido que tinha o bucho carregado de caracóis, eram em tão grande número que o barulho parecia um saco de moedas. Dos tipos de alimento que considero serem bastante apreciados pelos patos são o milho, a aveia e outras sementes, sendo que, têm ainda a vantagem de serem soluções baratas, fáceis de encontrar e ainda alimentam uma grande variedade de animais da nossa fauna. Aqui na zona do Ribatejo, temos um alimento que é bastante guloso para os patos e que é o repiso de tomate, mais difícil de arranjar e que implica uma maior logística para o transporte. Nas zonas de arrozais, e como não poderia deixar de ser, há que aproveitar o alimento pelo qual os patos se deslocam a estas zonas, arroz ou trinca de arroz, mais caro que a generalidade dos cereais, mas normalmente na caça nestas áreas as quantidades de alimento (e de patos) também não é normal que sejam tão elevadas. Obviamente que os patos não se alimentam exclusivamente do que referimos acima, mas estes a meu ver, são os alimentos que melhores resultados trazem e que melhor conjugam preço, acessibilidade e resultados.

Distribuição da alimentação

Ainda relacionado com a alimentação, é preciso percebermos se temos uma charca com pouca profundidade junto à borda ou com muita profundidade. Nestas últi mas convém limparmos algumas zonas junto à margem para colocarmos a comida, já que dentro de água fica menos acessível aos anatídeos, além de ser mais complicado para quem os alimenta controlar as quantidades a repor e se a charca está a ser visitada. Por outro lado, nas charcas cujas margens são pouco profundas, poderemos espalhar a comida junto à margem mas dentro de água, desta forma evitamos alguns “roubos” ao alimento dos patos, enquanto poderemos controlar as quantidades colocadas e com que voracidade os nossos amigos estão a alimentar-se. Temos ainda uma terceira opção onde poderemos colocar a comida que são as ilhas. Poderemos fazer uma ilha para alimentação, ou em lagos de maior dimensão usar as ilhas já existentes. São locais onde já existe um menor número de predadores e onde os patos se encontram mais descansados, se lhes adicionamos alimento os patos rapidamente ganham querença no local. Teremos sempre o inconveniente que para os alimentar teremos de embarcar e remar até lá, se no verão sabe bem o pas seio, de inverno já não podemos dizer o mesmo… As ilhas de alimentação artificiais não são mais do que dois bidons com uma palete por cima, bem atados. São muito fáceis de atestar de alimento, pois basta puxar um cordel, são uma excelente opção para charcas pequenas e profundas e em que as margens são mais íngremes e complicadas de colocar alimento. Com este tipo de estruturas os patos conseguem estar a alimentar-se, sem o perigo de serem surpreendidos por algum predador que se aproxime pela margem. Como vimos, não nos faltam maneiras de alimentar a charca. Temos de ter em atenção as características da charca, a nossa disponibilidade e a zona onde estamos para que tudo conjugado possamos desfrutar de umas belas jornadas de caça, assim a sorte nos acompanhe e a pontaria ajude.

O posto; tipos de aguardo

Existe ainda mais um aspecto que deve ser tido em conta na prepa ração de uma charca e que sugiro seja efectuado nas primeiras visitas que façamos à charca, o Posto. Existem diferentes tipos de aguar dos que podem ser feitos numa charca, com vários materiais, pre ços, fixos ou móveis. Há um sem fim de possibilidades e opções no que aos aguardos diz respeito. Não entrarei em especificidades de marcas ou formatos, materiais e construções. Abordaremos apenas de forma mais generalista em que situações se aplicarão os diferentes tipos de posto. Um dos postos mais simples e talvez dos mais utilizados em Por tugal, são os postos amovíveis de compra e que normalmente são do próprio caçador, mais ampla mente divulgados na caça aos tordos. Estes postos tem a grande vantagem de serem bastante portáteis, muito adaptáveis às diferentes condições do nosso posto. Esta é uma grande vantagem porque poderemos ter sempre o aguardo no carro e caso seja necessário usá-lo para melhor colocar o nos so posto ou até mesmo complementar o aguardo que o organiza dor da caçada nos deixou. Um dos tipos de posto que mais me agrada pessoalmente, são os postos naturais, pessoalmente, quando existem atabuas disponíveis e bem colocadas, é dentro delas que prefiro caçar, fora ou dentro de água com “waders”. Os postos naturais, sejam em atabuas, em volta da charca e com aproveitamento de arbustos ou árvores existentes, são sempre boas soluções para instalarmos o nosso posto. São os melhores em mimetismo com a envolvente, no entanto, a serem necessárias adaptações, corte de ramos, reduzir a altura aos arbustos, (sempre com a autorização dos proprietários), estas adaptações deveram ser efectuadas durante as primeiras idas à charca para distribuir alimentação. Estes postos são de graça, no entanto, têm alguns inconvenientes; se houver animais na zona estes podem roçar-se e destruir o aguardo, no inverno e quando há tempestades ou temporais podemos chegar e ver o nosso aguardo destruído. Por último, e para não me alongar demasiado, podemos optar por aguardos fixos, normalmente este tipo de postos são mais comuns em organizações de caça mais experientes na caça aos patos e que as fazem com maior regularidade. Um dos exemplos podem ser os barris enterrados e onde a pessoa se coloca lá dentro, ou ainda alguns paus com rede verde entre eles, estes um pouco mais rudimentares. Temos ainda estruturas de madeira ou metálicas e com alguns ramos. Este tipo de aguardos dura vários anos, o mimetismo dos mesmos é menos importante, já que os animais sempre conheceram a charca com estes monos à sua volta. Existem vários tipos diferentes de postos e de formas de os fazer, mas no meu entender, são estruturas essenciais na caça aos patos. Infelizmente vemos demasiadas vezes, pessoas com sacos de plástico a abanar ao vento ou com uma t-shirt branca numa caçada. Atenção que não sou defensor de camuflados, mas existe um meio termo entre ambos.

Montagem e colocação

Independentemente do tipo de posto onde vamos caçar, há uma outra componente de igual importância, o local onde vamos montar e colocar o nosso posto. As variáveis que influenciam a localização e montagem do aguar do, são muito dispares. Uma das mais importantes é o vento, os patos fazem-se à água sempre con tra o vento. Mas nem sempre o vento vai estar do mesmo lado e por isso é importante que independentemente do lado por onde nos entrem, o posto por cima do qual os patos entram, tem de controlar e não atirar na entrada dos patos, pois desta forma estará a espantar os patos para os restantes postos. Outro dos pontos muito importantes é a lua e as suas fases, estas influenciam não só a luminosidade, como as marés e até de forma mais empírica o comportamento dos patos, mais ao “estilo lobisomem”. Uma das alturas que selecionamos como melhor altura para caçar no que à lua diz respeito, são os períodos de Lua Nova, nestes dias os patos entram mais cedo e reduzem a actividade noturna, logo assim que começa a escurecer o movimento aumenta durante o período no qual ainda é possível caçar. Em zonas de caça junto de mar e rio, as marés também influenciam o movimento dos animais, com marés maiores e mais cheias há uma maior tendência de termos movimentos face ao interior. Reação idêntica é também observada nos períodos antes de grandes tempestades e baixas de pressão atmosférica fazem os patos movimentarem mais para zonas mais abrigadas e a buscar alimento mais cedo, para se preparem para estarem protegidos durante a tempestade vindoura. Como vimos muitos são os fac tores que influenciam a caça aos patos e a escolha do local onde os vamos caçar e onde deveremos colocar o nosso posto.

UM CONSELHO FINAL

Resumindo, até porque a maioria das caçadas que fazemos não temos grande opção de escolha, quanto ao posto, localização e condições atmosféricas, torna-se ainda mais importante entender como os patos vão entrar na charca e como os deveremos caçar. Um conselho que é transversal a todos os tipos de caça de espera ou em posto, é o de deixar a caça cumprir. Nos patos e se em sorteio nos calhou um posto em que ficamos com o vento de frente é provável que os patos entrem por cima de nós, nestes casos é muito importante deixar entrar os patos e não atirar, caso contrário estaremos a afugentar os patos dos restantes caçadores. Há que recordar que nas charcas se caça em grupo e a preparação de uma charca é um esforço colectivo, independentemente da forma como se organizem, uns terão mais disponibilidade financeira, outros talvez mais tempo, mas todos contribuem para preparar a caçada do grupo. O OBJETIVO É que todos possam chegar à abertura com uma charca bem visitada e um dia onde para além do desejado convívio, termos também uma jornada bastante animada e com bons resultados.

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