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Quando o erro está na hierarquia

by Jesus Barroso de la Iglesia

O treino com uma hierarquização limitada tornar-se-á mais difícil. E quero começar este artigo com esta frase, para que possamos perceber que a hierarquia e os papéis hierárquicos de qualquer grupo, são imprescindíveis para que as relações interespecíficas entre os membros das diferentes espécies sejam as desejáveis.

H á um tempo surgiu uma corrente que ia contra os desempenhos forçados nas alcateias de lobos, dizendo que as alcateias não são um grupo, mas sim uma família. E basta que surja algo novo para que, de seguida, seja absorvido pelos mesmos de sempre, apenas com o objetivo de humanizar os animais, principalmente os cães. Estou-me nas tintas para o que esta gente animalista, ecologista opina… é verdade que não me importa minimamente, ignoro-os, pois já demonstraram que a sua única pretensão é darem nas vistas, montando-se em cada oportunidade que têm. Mas vamo-nos centrar na ciência e nos cientistas de verdade, os do campo, os que pisam o mato e enchem as botas de lama para aproximarem-se da quilo que os livros dizem.

ANIMAIS SOCIAIS

Os cães são animais sociais, tal como os humanos, e por isso relacionam-se, convivem e precisam de um ambiente social, de um grupo, para conviver. O anarquismo, a democracia ou a igualdade entre sexos ou membros da manada (ou do grupo) não existe. Não somos iguais, nem nascemos com as mesmas pretensões ou aspirações. Tal como as pessoas, os cães nascem com capacidades de comando, de liderança, ou nascem submissos, seguidores do líder que os levará a bom porto. Quando as relações passam a ser interespecíficas, ou seja, entre cães e pessoas, essa hierarquia deve existir na mesma, porque agora há uma manada interespecífica que precisa de um líder e daqueles que seguem e obedecem a esse líder. Caso contrário, a relação será prejudicada e vai haver uma luta para se conseguir chegar a essa liderança; e sempre que há luta, há problemas.

UM EXEMPLO DE HIERAQUIZAÇÃO

No curso de Instrutor-Treinador de cães de caça que ministro regularmente tenho vários alunos com problemas com os seus cães. Diziam que os seus cães eram tontos, desobedientes, e que era uma luta constante no dia a dia. No entanto, eram exemplares com aptidões naturais como cães de parar muito boas, que cumpriam o seu trabalho na caça com distinção. Lembrei-me de fazer uma entrevista a cada um destes alunos para perceber melhor a situação e, desta forma, conseguir ajudá-los. Curiosamente, os que tinham problemas, tinham algo em comum: todos utilizavam um dispensador de comida, ou seja, um recipiente onde a ração é dispensada para os animais comerem (a ração cai enquanto eles comem) e, por isso, de forma constante e contínua têm sempre comida à disposição. Pensei em proibir estes dispensadores de comida e disse: “a partir de agora, têm de ir dar todos os dias comida ao vosso cão, mas num comedouro fixo, com uma medida certa de ração”. Todos consentiram e aceitaram perder a comodidade e a despreocupação diária que estes dispensadores de comida trazem. Na semana seguinte, estes alunos falaram comigo para demonstrar a sua surpresa. Os cães deram uma volta de 180º graus no seu comportamento; mostravam-se mais carinhosos, mais obedientes, associavam os exercícios, precisavam de menos repetições e, inclusive, houve um que não aceitava as recompensas em comida (pedaços de salsicha) e, assim que o dono retirou o dispensador de comida, começou a aceitá-las e a melhorar a sua aprendizagem. E esta história que acabo de vos contar não é mais do que uma forma de hierarquizar. Passamos a ser os procuradores do seu sustento, passamos de ser os companheiros de saídas e de brincadeiras para sermos uns líderes respeitados. Pode parecer uma piada, mas é uma realidade palpável e demonstrável.

ASPETOS DA HIERARQUIA

A comida, a forma de darmos de comer, já vimos que é então uma forma de hierarquização. O treino em si mesmo também fixa os papéis sociais, eu mando, tu obedeces e eu dou-te uma gratificação por isso, ou não te dou nada e ainda recebes uma correção, se não respondes da forma que eu quero. Não somos iguais. A convivência quotidiana com os nossos cães tem inúmeros aspetos hierárquicos, como por exemplo, o lugar do cão e o nosso. Apesar de conviver na mesma casa, o cão tem de ter o “seu sítio” (não o deve partilhar connosco). Não é o mesmo que eu o deixar subir para o sofá ou para a cama, em determinados momentos, apesar de isso ser um hábito e esses lugares se tornarem em lugares partilhados. Nessas situações, sobe se eu permitir, porque o seu sítio é na almofada, no chão. As portas são fundamentais para quando os vamos levar à rua, por exemplo. Devemos habituá-lo a que não saia ao ver a porta da rua aberta; só deve sair quando eu disser que pode sair. Isto também resulta se tiver um cão num canil, em vez de o ter em casa. É exatamente o mesmo. O cão está desejoso, ansioso, nervoso pela nossa chegada ou para sair quando abrimos a porta, e esse momento deve ser controlado: acalma-te e espera, e então eu premeio-te deixando que saias.

EM JEITO DE CONCLUSÃO

Insisto na inexistência de igualdade, como também insisto em que o nosso comportamento deve ser o de líder e nunca o de submisso. Os prémios devem estar sempre presentes, e não me refiro apenas aos prémios de comida, pois os prémios verbais que condicionamos com os prémios de comida deixam o nosso cão feliz. Lembrem-se que qualquer conduta premiada tende a repetir-se, e portanto, premiar, premiar e hierarquizar, já que ambas as coisas são indispensáveis na relação homem-cão.

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