Frequentemente ouvimos que um determinado monteiro voltou a ter sorte e cobrou o melhor veado ou javali da montaria. Por vezes até se desconfia que esse caçador terá alguma “influência” junto das organizações e consegue um “posto melhorado”. Considerações maldosas à parte, a verdade é que há muitos monteiros – com maior ou menor histórico de participações em montarias – que não sabem aproveitar da melhor forma o seu posto.
Faz agora um ano, numa das últimas montarias da época 2024/2025, que ajudava um amigo na organização de uma das suas montarias participando na recolha dos javalis abatidos. Como não gosto de estar muito tempo parado, convenci uma das matilhas a acompanhá-la. Contudo, estava eu junto ao carro dessa matilha, já com as portas praticamente colocadas, quando me aparece um “monteiro” de mochila e arma “enfundada” às costas vociferando “alhos e bugalhos” sobre o posto que lhe tinha calhando em sorte. Perguntei o que se passava e rapidamente me disse; “Não julguem que me papam com grupos! Aquilo não é posto para caçar!! Ali não passa nada!” Quem me conhece, sabe que sou bastante calmo e até compreensivo, pelo que perguntei se conhecia as pessoas da organização e se confiava nelas, mas rapidamente me apercebi que nada havia a fazer, o “monteiro” queria mesmo abandonar a montaria. Um telefonema à organização e, como tinha o meu carro ali, recebi a ordem para devolver o “monteiro” à proveniência que alguém trataria de ressarci-lo. Assim o fiz. Regressado ao local da solta e à matilha que iria acompanhar, junto ao meu amigo organizador, perguntei se podia ocupar o posto que tinha ficado livre, pois estava mesmo ali em baixo, a não mais de 200 metros e a solta ainda não tinha acontecido. Assim o fiz.
OLHAR PARA O POSTO
Cheguei ao posto e rapidamente observei duas veredas seguidas, uma mesmo frente à fita que marcava o posto – onde me coloquei – e outra a 40-50 metros à direita. Tratava-se de um posto sujo, mas na minha (pouca!) experiência muito “palpitoso”. Não me enganei! Os tiros ali perto não demoraram a se ouvir, ainda antes da solta e assim que a matilha que me tinha proposto acompanhar soltou, a cerca de 200 metros do meu posto, ouvi o “restolhar” na mata de eucaliptos e um bom javali surge na vereda à minha frente. Um tiro certeiro da minha Mauser .270 Winchester, a não mais de 10 metros e o javali ali ficou!! Um lance típico de montaria ao javali! Pelo menos assim considero, embora hoje se goste de caçar aos porcos de “chapada para chapada”… Ainda tive outro lance bem perto do final na montaria no posto que não agradou ao “monteiro” desistente; na tal vereda à direita, um javali assomou o focinho, esperei que avançasse para o caminho e… um primeiro disparo, pouco certeiro (…) e mais um que o deixou seco! Certamente não sou “melhor caçador” (seja o que isso for) do que o “monteiro” desistente, apenas soube olhar para o posto e manter-me a caçar durante a montaria.
AOS JAVALIS
A primeira coisa que como monteiros devemos perceber é que, neste caso, caçamos aos javalis e observar o terreno contribui para a primeira parte do êxito. Depois devemos manter uma postura adequada ao que fazemos, ou seja, estarmos a caçar. Se soubermos interpretar os sons e ruídos, poderemos dar conta da aproximação de um javali subadulto que pouca discrição fará na sua fuga aos cães. O mesmo não se passará com um velho e sabido navalheiro, que mesmo com os seus quase cem quilos se deslocará em “pés de lã”. Um ligeiro partir de um ramo, o movimento de um merlo… tudo isso podem ser sinais que nos avisam da chegada de um javali ao posto. Mas para isso há que estar a caçar.

DEPOIS DA MATILHA
Quantas vezes perdemos a oportunidade de atirar a um bom porco por baixarmos a nossa atenção depois de passarem as matilhas? A mim já me aconteceu… Os javalis mais sabidos preveem o perigo e muitas vezes conseguem despistar os cães procurando pôr-se ao “fresco” depois da confusão passar. É curioso observar como alguns javalis, talvez depois de saírem ilesos de várias temporadas de montarias, saem por onde menos se espera, por vezes direitos à solta das matilhas.
MONTARIA MISTA
Habitualmente temos um cupo e quando é de um único cervídeo só isso é suficiente para complicar a cabeça de muitos monteiros. Depois há quase sempre uma tentativa de “apanhar” a maior área de tiro possível, por vezes com uma “pequena” deslocação do local assinalado com o número do posto e descurando uma boa passagem a poucas dezenas de metros – além de poder quebrar a segurança desse mesmo postos. Antes de qualquer outra consideração, devemos perceber que uma montaria com cervídeos tem habitualmente (atenção, a caça não é uma ciência…) um desenrolar diferente de uma caçada aos javalis. Há com frequência movimento de reses assim que se inicia a colocação dos postos, inclusive de javalis devido ao passo dos cervídeos. Voltando ao cupo de um macho, por vezes saber aguardar pela passagem do “melhor” pode nos trazer grande alegria. Se não aconteceu… paciência, o “tal” ficará guardado para a nossa próxima montaria.
SABER ESTAR NO POSTO
Um aspeto muito importante é deixar cumprir a rês, intuindo qual será o seu percurso de fuga. Uma rês que baixa de uma encosta, ao chegar a um regato para passar ao outro lado, podem optar por mudar de rumo fraldeando, pelo sopé, sem dar oportunidade de tiro. Ou até poderá percorrer o regato que nos parecia intransitável; a caça aos javalis é assim… Além de estarmos de forma correta no posto, sem fazer demasiado ruído nem nos movimentarmos excessivamente, há que estudar qual será o nosso “campo de tiro”, verificando sempre que o mesmo cumpre todos os requisitos de segurança. É melhor assegurar um local onde poderemos colocar uma bala certeira, do que apostar no aceiro a mais distância que nos dará possibilidade de dobrar o tiro. Para o correto processo de pontaria num disparo a mais de meia centena de metros devemos ter espaço para “correr a mão”.
