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A obediência básica é suficiente?

by Jesus Barroso de la Iglesia

Em primeiro lugar, tentarei definir o que é a obediência básica, pois acredito que nem todos tenham este conceito clarificado. Obediência básica é o mesmo que treino básico, o mesmo que treino em sala de aula. São formas diferentes de nos referirmos ao mesmo, a uma educação primária, básica e comum a qualquer tipo de cão destinado a qualquer tipo de trabalho, para o qual depois precisará de um treino específico.

Obediência básica é definida por uma série de exercícios básicos, também chamados de “exercícios de sala de aula”, onde vamos ensinar o cão a vir à chamada, através da voz, do assobio, ou de ambas as coisas. Também fazem parte os exercícios do “senta”, do “volta” e do “quieto” nas suas várias variantes (perto, longe ou com o cão em movimento). Ensinar o cão a andar ao nosso lado, sem tirarmos a trela ou mesmo solto, é outro exercício da obediência básica que normalmente chamamos de “exercício do junto”.

UTILIDADE

É aqui que chegamos ao centro da questão, já que muitas das dúvidas que recebemos por email ou através das redes sociais são muito idênticas, de forma geral: “o meu cão obedece muito bem ao quieto, mas no campo espanta as perdizes todas”; “o meu cão faz muito bem o junto, inclusivamente sem trela, mas depois de parar uma peça não faz uma boa guia, porque carrega e acaba por espantar a caça que parou”… Digo sempre que a chamada é essencial para a busca cruzada e para o cobro, que o quieto é essencial para fixar a paragem, o junto para a guia, etc. O que é que acontece, então? Pois acontece que temos nas mãos um tipo de cão com a maior auto-motivação que existe, já que nenhuma outra raça pode ser comparada às raças de cães de parar, de rasto ou de levante (os retrievers menos). Essa auto-motivação é o que chamamos de “paixão” e que é responsável pela desobediência dos cães que temos na nossa casa ou no canil. Sim, mesmo que lhe tenhamos ensinado o básico, ficamos “desfalcados” porque precisamos de trabalhar a obediência específica ou o treino específico, neste caso, de caça. Não nos serve de nada a chamada por si só, sem trabalharmos posteriormente a busca cruzada. Mas a chamada é necessária e muito importante, pois sem ela a busca cruzada vai ser muito mais difícil. Com o processo de chamada compreendido e consolidado vou então trabalhar a busca cruzada, onde, caso seja necessário, posso recorrer à coleira de ensino (de impulsos) para terminar a consolidação da aprendizagem.

PORQUE ESTAMOS AGORA A FALAR DA COLEIRA DE ENSINO

Apesar de ter dito que o cão já tem a chamada muito bem interiorizada, há uma coisa que se chama “inteligência ambiental” ou “espacial”, sobre as quais se dão as associações de lugar. Isso junta-se à auto-motivação, a paixão de cada exemplar, e ao colocar o nosso cão em terreno aberto (a obediência básica treina-se num lugar livre de motivações e o mais cético possível, para evitar cheiros que distraiam o aluno) aparece a tão temida desobediência. O cão sabe o que lhe pedimos, mas a paixão, os cheiros e o lugar novo distraem-no, dizem-lhe para procurar, que foi para isso que nasceu, não para fazer tudo o que o dono lhe diz a troco de um bocado de salsicha. É aí que a coleira de ensino (de impulsos) nos ajuda e poderemos treinar corretamente a busca cruzada. Mas para começar a utilizar a coleira de ensino tem de haver um hábito, uma dessensibilização, e estarmos seguros do nível que devemos colocar. Bom, e o que acontece com o quieto, depois do meu cão parar? Não obedece. Ocorre o mesmo: motivação, lugar… Pode ser útil começar com uma trela para reforçar o quieto. A coleira de ensino deixamos para mais tarde, já que agora o cão poderia associar o impulso da coleira com a presença da caça, ou seja, entenderia que uma perdiz é aquilo que o castiga e da próxima vez retrair-se-ia com a presença da mesma. Não arrisquem se não estiverem seguros, pois a forma correta se ria fazê-lo entender antes aquilo que estamos a pedir e depois consolidá-lo. É diferente dizer ao cão “quieto” ou treinar sem caça e se não responder aplicar um impulso da coleira de ensino do que fazê-lo com caça, cuidado! Têm que trabalhar a obediência básica até haver uma consolidação da mesma, e depois fazê-lo de forma específica, com caça à frente e a dar sempre a ordem de forma prévia. Dessa forma o cão não se pode confundir: será a desobediência à ordem que o castiga e não a presença da caça. Por isso, neste caso, o uso da coleira de ensino é fundamental durante o período de obediência básica.

BÁSICA E ESPECÍFICA: SEPARADAS OU JUNTAS?

Ou seja, devemos fazer primeiro uma e depois a outra, ou fazê-las juntas? Depende muito do exemplar, da idade, da motivação, da sua paixão, da desobediência… Se o cão for nosso, obviamente que há um período crucial de educação que gosto de diferenciar do de treino. Trata-se do período de socialização e educação primária para comportar-se na sociedade e com outros cães: trela, comida, necessidades fisiológicas, ladrar, morder coisas, etc. Chegados aos cinco ou seis meses, podemos começar com a obediência básica, sem pressões. Depois vinha o contacto com a caça para avaliar e ver a paixão e a auto-motivação (até onde vai o nosso exemplar ou até onde parece que vai chegar). Depois disto, começaremos um pouco mais a sério e alternamos uns exercícios de obediência básica com outros mais específicos, ou não (dependerá, repito, do exemplar). E como é que sabemos isso? Através da observação e da experiência com outros exemplares. O maior problema que existe é que normalmente as pessoas não têm nada disto em conta; vão diretamente aos problemas e podem realmente fracassar. É mais fácil preparar o cão antes de corrigi-lo. A preparação é a obediência básica e a correção virá depois, para consolidar o que foi ensina do com os exercícios do treino específico.

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