Um filósofo dizia que só era possível adquirir experiência através do tempo. E é precisamente através das experiências vividas durante o decorrer dos anos de que me apercebi (talvez porque a minha falta de jeito não me tenha aberto os olhos antes) que o lugar onde vive o nosso cão de caça tem muita importância, muitíssima importância, seja para o seu desenvolvimento, para a nossa relação binómia, para o treino…
Relativamente ao cão vi ver em casa, temos aqui duas variantes claras: num apartamento e numa moradia com um canil.
APARTAMENTO
Existe a farsa, suponho que co nhecida por todos, de que um cão dentro de casa é equivalente a um cão mimado e que nunca servirá para caçar. Sim, disse farsa, ou seja, trata-se de um mito, de uma lenda, e é falso. Não há nada me lhor do que partilhar a vida com o nosso companheiro de andanças cinegéticas porque a sua capaci dade de observação, juntamente com o tempo que passa connos co nos diferentes âmbitos do dia a dia, leva a que nos conheçamos melhor, a que conheça a nossa linguagem de forma mais rápida, pelo que aprenderá melhor as coisas que lhe ensinamos. Um cão que vive dentro de casa deve ser mimado, claro que sim. Festas, recompensas em forma de comida, companhia… não fazem mais do que fortalecer o cão, não o fragilizam. Por favor, percebam que isto é a verdade. E isso não quer dizer que não mantenhamos uma hierarquia, que o cão deva de ter um sítio seu em nossa casa e, portanto, cumprir o seu papel. Observemos bem o seu comportamento, já que isso vai-nos ajudar a perceber o seu caráter e, com base nisso, ajudar-nos a atuar em determinadas situações. A comida é a melhor aliada para a hierarquização. Dar-lhe de co mer e que só coma quando lhe dissermos. Não o deixem pedir enquanto vocês comem, somente se vocês estão a controlar a situação, ou seja, não permitam nun ca que o seu papel seja de exigir/ pedir. Podemos dar-lhe da nossa comida, mas a troca de alguma coisa. Por exemplo, se nos incomoda enquanto comemos, não se deve dar nada; mas se obedece e não incomoda, chamamo-lo e da mos-lhe um bocadinho da nossa comida. Dessa forma, perceberá rapidamente que se estiver calmo e sem incomodar, obterá aquilo que deseja; é simples e fácil, em bora não o seja assim tanto quando aplicamos. São fundamentais as saídas para desanuviar, não só para fazer as suas necessidades. Um cão den tro de casa precisa de sair várias vezes ao dia, e sobretudo que uma dessas saídas seja mais demorada, mais de uma hora, para mantê-lo em forma para quando chegar a época da caça.
MORADIA
É exatamente o mesmo que num apartamento, se bem que quero incidir aqui num aspeto que em casa pode ser negativo. Muitas pessoas pensam que, por terem um jardim, podem soltar lá os cães e fazerem os tais passeios, ou seja, como passa tanto tempo no jardim, se ele se quiser exercitar, exercita, e se quiser fazer as suas necessidades, faz. Não façam isto por favor; mesmo que tenham um jardim, de vem tentar passar tempo com o vosso cão, brincar com ele e levá-lo a passear, porque é importante para a sua saúde men tal. Muito cuidado se falamos sobre raças com tendências dominantes, como o drahthaar ou o braco alemão, e de exemplares poderosos que podem chegar a dar problemas de hierarquia que podem levar a agressões em humanos. São casos isolados, pouco frequentes, mas é cumprido sempre o mesmo padrão, a mesma causa: cão dominante que vive no jardim e passa tem po sozinho. Cuidado.

VIVER NO CAMPO
Os que têm os cães no campo, nas redondezas da aldeia, devem ter em conta certas considerações e aspetos que a experiência me ensinou que são causa de muitos problemas de conduta.
NO CANIL OU SOLTO
Há outra opção que, atualmente, graças a Deus, está totalmente proibida: ter um cão acorrentado. Isso, nunca mas nunca. Apesar de acharem que o cão vai estar melhor solto numa parcela de mil ou dois mil metros quadrados, não é verdade. O que vão conseguir é que os cães se tornem independentes e se agrupem em matilha, no caso de haver mais cães. Habituam-se a não depender do humano mais do que é necessário e podem tornar-se ariscos. Além disso, quando forem trabalhar com eles, tiram os cães de cada vez, o que pode piorar os comportamentos de que esta mos a falar. É fundamental que haja uma de pendência pelo dono, que lhe proporciona alimento e água, e o tira para passear, o liberta. Aqueles comedouros automáticos que al guns têm, em que a ração cai automaticamente e dura alguns dias, esqueçam… Livrem-se disso, pois são prejudiciais! Vou contar-vos uma curiosida de sobre isso. Sempre que algum aluno da nossa escola de caça tem problemas enquanto está a trei nar o seu cão durante o curso de treinador, fazemos-lhe esta re comendação. E quando retiram este comedor automático, e me tem o cão num canil, a sua pre disposição à obediência muda; a relação com o seu treinador também melhora. Pensemos nisto, por favor, e lem brem-se de tirar os cães, já que é necessário interagir o máximo possível com eles através da brincadeira, do trabalho… Devemos ser líderes e não tira nos. A espingarda não nos torna líderes e o desapego não nos tor na tiranos.

