A caça pelo processo de aproximação é a arte milenar que combina paciência, observação e conhecimento extremo do ambiente natural para se conseguir aproximar e caçar um animal.
TEXTO E FOTOS: @RAMÓN.FITÓ
Podemos dizer que a caça de aproximação é uma modalidade de caça praticada por um só caçador que, de forma ativa e a pé, efetua a busca, perseguição e aproximação a uma peça de caça maior com o fim de a capturar. Assim, se quiser verdadeiramente praticar esta modalidade e terminá-la com sucesso, esteja atento às dez máximas que aqui deixamos para que possa desfrutar deste tipo de caça.
PREPARAÇÃO, CHAVE PARA O SUCESSO
Tanto faz qual seja a espécie que vamos caçar, o lugar, seja na montanha, no bosque ou na planície, ou até mesmo qual o nosso propósito em relação ao troféu (medalha ou seletivo), ou que seja simplesmente para obter carne; a caça é a experiência e o desafio. Temos de entender que caçar de aproximação é uma arte e uma ciência ao mesmo tem po, pelo que é importante seguir este decálogo. Para uma melhor compreensão, vamos dividi-lo em três partes fundamentais; a preparação; o desenvolvimento da caçada; e o que se passa depois do tiro.
1.Planeamento. Começa estabelecendo objetivos básicos, primeiro sobre a espécie que vamos caçar, o que determinará a escolha da arma e da munição e, segundo, a zona onde vamos caçar – a topografia, vegetação e o clima que vão ter influência tanto no equipamento como na preparação física. Dentro do planeamento, não nos podemos esquecer dos aspetos legais que afetam a nossa caçada. É importante conhecer todas as regras locais no que diz respeito ao cumprimento da lei, inclusive sobre o tipo de armas e outros equipamentos a utilizar (como a ótica). Habitualmente a nossa caçada implica uma esta dia, pelo que também essa parte pertence ao planeamento. Por fim, antes de sairmos de caça, convém avaliar a previsões meteorológicas.
2.Conhecer a presa. Um bom predador conhece bem a sua presa e para isso é fundamental conhecer os hábitos da espécie que vamos caçar; onde e de que se alimenta, onde descansa, a sua estrutura familiar e social, movimentos e querenças, etc. O comportamento de uma espécie é alterado por eventos como o cio, as estações; nada disso deve ser esquecido. É importante também saber identificar os rastos (pegadas) do animal, os seus excrementos, tipo de pelagem…; tudo isto são pistas valiosas. Todo este conhecimento profundo da presa permitirá prever os seus movimentos e reações quando estivermos perante ela.

3.Preparação. O momento do tiro na caça de aproximação resume-se, de modo geral, a um único disparo. Se tivermos de repetir o tiro será por que cometemos algum erro. A escolha da arma e munição é algo fundamental para ter sucesso na caçada. É importante que o calibre seja adequado às características físicas da peça de caça e, além disso, temos de considerar a distância de tiro com a finalidade de reali zar um disparo perfeito. Para isso temos de preparar todo o equipamento; a arma, munições e ótica, todo este conjunto deverá estar perfeitamente afinado.
DESENROLAR DA CAÇADA; O JOGO COM A PRESA
Concluída a preparação da caçada, há que colocar em prática os nossos conhecimentos e habilidade. O desenrolar da caçada é a fase mais emocionante e desafiante, onde a paciência e a estratégia se tornam funda mentais.
4.Obervação. Nada mais do que olhar; a imersão profunda na linguagem da natureza, uma leitura atenta dos sinais de que esta nos coloca perante os nossos olhos. Antes de qualquer movimento temos de investir uma boa dose de tempo a nos convertermos em meros espectadores. Se não conseguimos ver nada que nos interesse, avançamos até ao próximo ponto de observação, e assim durante toda a jornada. Nesse instante, armados de paciência e utilizando a arte suprema da observação, podemos estudar a nossa presa, selecionar o exemplar e planear a estratégia para a aproximação e posterior lance. Começa o jogo mortal que combina astúcia e paciência, e que bem jogado nos levará ao sucesso.
5.A linguagem do silêncio. Em qualquer tipo de caça o silêncio é fundamental, mas é na aproximação que adquire o máximo protagonismo, convertendo-se na arma invisível do caçador. Temos que partir de uma premissa: no ambiente onde nos vamos movimentar, os sentidos da presa são apuradíssimos, de forma que qualquer ruído, por pequeno que seja, pode alertar o animal e colocá-lo em fuga. Não se trata apenas de andar sem fazer ruído; a roupa deve ser silenciosa, sem presilhas metálicas ou outros acessórios que possam denunciar a nossa presença. O silêncio, inclusive na comunicação quando caça mos acompanhados, permite-nos também escutar todos os sons desse ambiente a que agora pertencemos.
6.Camuflagem. Sem dúvida, um dos pontos-chave é passarmos despercebidos. O principal objetivo da roupa camuflada é quebrar a silhueta humana, permitir que o caçador se funda com o ambiente, o que dificulta aos animais poderem nos de tetar. Devemos considerar que existem dois tipos de animais: os predadores, como o lobo, leão, homem…, que têm olhos frontais e uma excelente perce ção de profundidade e distância para realizar o ataque; e aqueles que são presas, com os olhos laterais, como o veado, que têm um amplo campo de visão e uma grande capacidade de detetar movimentos, que os fazem en cetar a fuga.

7.Bom vento. Na caça de aproximação é vital dominar o vento, pois os animais que caçamos têm um olfato muitíssimo desenvolvido e são capazes de nos cheirar a grande distância. Por isso, o caçador apenas de deve movimentar assegurando-se que o seu odor não será carregado pelo vento (mesmo a mais leve brisa) na direção do animal que caçamos.
8.O momento do tiro. O objetivo da caça de aproximação é conseguirmos chegar a uma distância de tiro eficaz, quando o conseguimos, a partir daí parece que tudo se passa em câmara lenta. Devemos controlar a respiração, procurar baixar os batimentos cardíacos e colocar a cruz estável na zona vital da nossa presa. Procuramos a posição mais confortável para o nosso corpo, procurando estabilidade. Antes do tiro, devemos ter um momento de reflexão para conseguir o disparo perfeito, se necessário esperando “longos” segundos até que a presa se colo que na posição ideal. Colocamos o dedo no gatilho e… o disparo surpreende-nos. Um instante eterno que na realidade pode ser medido em décimos de segundo, tanto quando tardou o projétil a alcançar o alvo. Agora há que analisar o resultado do nosso disparo: o animal caiu no sítio; ou pelo contrário, iniciou uma fuga que o levará à morte ou, o pior dos casos, saiu ferido e obrigará a um longo trabalho de busca. Em qualquer dos casos, o pior é sair a correr ao lugar do tiro.
O EPÍLOGO
O disparo foi bem-sucedido, chegamos à parte final da nos sa viagem; o cobro, preparação do troféu e aproveitamento do animal. Por vezes, uma odisseia.
9.O cobro. Pode ser fácil ou um autêntico calvário. Se não vimos o animal cair à nossa frente, o recomendável tempo de espera parecerá uma eternidade. Por vezes, chegar ao local onde se encontra a rês que acabamos de abater não é fácil. Nesse caso é fundamental planearmos esta parte que implica localizar a peça, aproximarmo-nos com respeito e assegurar que o animal está morto. Se não for o caso, de vemos fazer tudo para finalizar o sofrimento.
10.Troféu e aproveitamento. Temos obrigação de aproveitar com ética e respeito o animal que acabamos de caçar. O troféu e a carne são os dois elementos valiosos da peça. O troféu deve tratar-se com admiração, honrando a beleza e singularidade do animal. A carne, que para muitos é o principal objetivo, deve ser cuidada higienicamente para o seu consumo. Este pro cesso simboliza o fim do ciclo da caça, onde o respeito e reponsabilidade são as máximas a seguir para que a caça seja uma atividade sustentável.
PARA TERMINAR…
caçador moderno está aberto a todas as tecnologias, mas sem nunca deixar de lado as tradições ligadas às práticas venatórias. Um caçador consciente do seu impacto, comprometido com a sustentabilidade, o meio ambiente e a segurança, entende em todos os momentos que a caça de aproximação é um autêntico desafio e que é muito mais do que disparar.
